7 de jul de 2008

O Livreiro e o Terminal

Intrépido eu estava. Com minha namorada também estava. Estava a bisbilhotar os livros que podia bisbilhotar numa livraria qualquer de um shopping qualquer de uma cidade chamada São Paulo. Esta não é qualquer.
Entre livros, decidi ir até o terminal de consulta. Buscaria um livro que, de modo algum, encontrara a olho nu. Disse buscaria, não?
Buscaria, pois o terminal travava a cada busca. Questionei, pois, o vendedor. Ele me respondeu. Respondeu que o sistema fora avariado pela pane de quinta-feira. A pane da internet, da Telefônica, do Speedy. Pane, esta, que foi comparada pelo jornal Folha S. Paulo ao 11 de Setembro.
Bacana, heim!
Olha como somos ótimos! Tornamos-nos reféns. Da internet. [Ah, este blog faz parte dela] Da bomba de informações que ela é. Pasmem! As delegacias não tinham um sistema B. Que tal uma velha Olivetti?
Ressuscitando
Depois de tudo, estive a indagar, até que recordei de um texto em que eu esculachava Orkut e MSN. Daí, unindo útil a agradável – já que o Max estava a me pressionar por um post, resolvi postar o texto.
Será o meu primeiro texto sob a linhagem androceutica. Espero que gostem. Se não gostarem, retornem, por favor. Em comentário, e-mail, mas retornem, pois, como saberão, meu maior medo é não ter os textos comentados. Minha mãe sempre esquece de comentar.
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Por uma vida off-line
Num afã de globalização indistinta e progressiva, nos vimos no direito/obrigação de criar novos paradigmas, novas formas de comunicação. Neste contexto de globalismo, surge a Internet, criada para dar suporte de dados e informações ao exército americano [já não era muito nobre]. A partir desta rede, que se diz mundial de computadores, vieram algumas ferramentas como o correio eletrônico, os softwares de mensagens instantâneas e, por fim, as comunidades virtuais.

Sob o aspecto democrático destas ferramentas muito já foi dito, tanto por usuários, entusiasmados pelo volume de dados disponíveis na rede, quanto por teóricos da globalização, se assim podemos os designar. A idéia de a Internet nos ligar aos mais distantes locais da Terra nos é embalada e vendida pelos grandes portais como panacéia. Não é bem assim.

Quero observar um movimento [não sei se loucura minha] que tenho achado estranho e perverso, causado pela ascensão destas ferramentas, das quais tentarei me ater às comunidades virtuais, a exemplo do Orkut, e aos softwares de mensagens instantâneas, como o MSN que, a meu ver, alteram nossas relações, nossa forma de lidar com a vida e nosso comportamento.

Sobre as comunidades virtuais como My Space, Orkut e similares farei algumas considerações que me puseram em estado de atenção. Em primeiro lugar, sinto que estas comunidades virtuais, em tese democráticas, desagregam. Tornam as relações entre os homens mais prolixas, promíscuas e distantes.

Reconheço que a relação entre alguém que tem um amigo ou familiar distantes, num outro estado, cidade ou região é facilitada pelas comunidades virtuais. O que, entretanto, não substitui a relação de olhar, rosto a rosto. Esta mesma facilidade tornou nossas relações mais preguiçosas, sob a ameaça de termos relações mais ‘intensas’ no mundo virtual, já que podemos conversar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Não concordo em conversar com um vizinho pela Internet. É desumano. O computador não dá conta dos gestos faciais que fazemos. A conversa é empobrecida.

Também não concordo com a expressão mundo virtual. Por mundo, entende-se o conjunto de tudo, espaço onde todas as relações acontecem, onde a vida se permite. O que, definitivamente, não é o caso do virtual. Não se esgotam a possibilidades de relações numa comunidade virtual. O contato corpóreo, para ser mais explícito, não pode ser deixado de lado. Parece-me que a globalização, via internet, é hipócrita. Não é possível que possamos trocar uma boa conversa com um amigo por um perfil do Orkut. Mas as grandes corporações da comunicação insistem em vender a idéia das relações ilimitadas. Por este, assim chamado, mundo virtual.

É estranha também a idéia dos softwares de mensagens instantâneas, por excelência o MSN, que é o mais massivo. Usarei novamente o exemplo de uma boa conversa com um amigo, num bar, bebendo uma boa cerveja ou mesmo um café. As atenções, em programas como o MSN, são geralmente dispersas. Chega-se ao ponto de conversarmos com nove, dez usuários ao mesmo tempo. Em se tratando de um bom diálogo com um amigo, não parece razoável que você deixe de prestar atenção no que este amigo diz para virar-se a uma outra conversa, num tema completamente diferente.

Ilustrando. Estou teclando com Henrique, meu amigo, e estamos falando sobre o fatídico jogo entre Sport e Palmeiras. Teclo também com Cláudio, outro amigo, mas desta vez o tema são as musicas que preferimos. Há ainda o Márcio, que me faz confidencias sobre seus casos amorosos. Uma mistura nada digerível. Some-se a isso o fato de eles também estarem teclando com outros. Isto, para mim, não é diálogo, e menos conversa. É, sim, poluição comunicacional, desinformação em massa.

Preocupa-me o que fazemos da Internet. Não sou filósofo, poeta, padre, ou etc. Mas qual a pertinência de um veículo depositório de abraços, te adoros, te amos, como MSN, Orkut e outros do tipo? São abraços que não abraçam, não confortam. Quanto à profusão de ‘eu te amos’ e ‘eu te adoros’, ou a relação é pobre, ou, em caso mais remoto, o amor se alastrou. Os fatos, quaisquer dele, jornalísticos ou não, dizem o contrário. O amor não é a vedete do mundo contemporâneo.

Outro ponto. Não me é concebível um comportamento no real e outro no virtual. Será que existem múltiplas personalidades e nós, a depender de nosso humor, escolhemos uma personalidade diferente a cada dia como se estivéssemos numa feira de mercadorias ou mesmo na bolsa de valores? Estaríamos nos transformando numa commodity? Soa estranho tudo isso.

Quero, entretanto, deixar claro que não estou fora deste movimento e que também contribuo para esta poluição que é a Internet. Sou, também, filho das relações criadas pela Internet. Minha geração é a da Internet.

Enfim, devemos repensar nossas relações para com a Internet e com os internautas. Se o apedrejamento não é permitido em praça pública, também não o é na Internet. O racismo, o desrespeito, a selvageria, a pedofilia, a invasão de privacidade – vide Google Earth – também não são. Não podemos agir como se na Internet não existissem educação e respeito. Do jeito que está, a Internet intensifica a má educação do homem.

Não podemos esquecer o que é, de fato, a Internet: uma mercadoria, não um mundo. Há força de trabalho investida no processo de produção de dados e informações on-line. Não podemos nos esquecer, sob o risco de trocar a parte pelo todo, uma amizade pelo perfil do Orkut, realidades por virtualidades, inimizades, banalidades.

Fixemos: a Internet é apenas uma ferramenta. Tornada global, mundial, verdade absoluta, ela nos será alienante. Será, apenas, uma promessa de democracia e que, na verdade, é esperteza dos que têm o poder, pois no ‘mundo’ virtual não se alteram a estrutura social, as desigualdades. A revolta dos homens contra as situações de injustiça não pode ser on-line. Nossa linha é o real. Não há uma segunda vida, um Second Life.

Afinal, para que lutamos?

4 comentários:

Max disse...

No momento eu luto pelo meu jantar... depois eu luto por uma cama e eu vejo que temos um Bruno 2.0 no Blog...

Isso é um elogio... só que não espere muitos comentários graças a isso...

bruno disse...

Gostei desse trecho: "Ilustrando. Estou teclando com Henrique, meu amigo, e estamos falando sobre o fatídico jogo entre Sport e Palmeiras. Teclo também com Cláudio, outro amigo, mas desta vez o tema são as musicas que preferimos. Há ainda o Márcio, que me faz confidencias sobre seus casos amorosos. Uma mistura nada digerível. Some-se a isso o fato de eles também estarem teclando com outros. Isto, para mim, não é diálogo, e menos conversa. É, sim, poluição comunicacional, desinformação em massa".

Da mesma forma que a realidade se fragmanta, no "mundo" virtual, as relações também se fragmentam, e, num só momento, somos vários: o amigo que consola o outro, o telespectador de videos do you tube, aquele que lê os comentário de um amigo..etc.
A exclusividade, a intimidade deixam de ser dirigidas a um, passando a ser algo que devemos dar a todos e também de todos exigir.


muito bom seu texto!

Luiz Henrique Mendes disse...

Opa! Vlw pelos elogios.

mario disse...

Oi, Luiz! Parabens pela estreia!