11 de jan de 2008

Momento Gineceu

Aí vai um texto do autor favorito de dez entre dez de nuestras hermanas gineucêticas, Antônio Prata. Eu gosto bastante do jeito que o cara escreve e esse texto em particular tem um quê a ver com o post abaixo, de Mário el Borracho. Divirtam-se.

Conveniência

(publicada no Guia do Estado)

Olhai, oh Senhor, os jovens nos postos de gasolina. Apiedai-Vos dessas pobres criaturas, a desperdiçar as mais belas noites de suas juventudes sentadas no chão, tomando Smirnoff Ice, entre bombas de combustível e pães de queijo adormecidos. Ajudai-os, meu Pai: eles não sabem o que fazem.
São Paulo não tem praças, eu sei. As ruas são violentas, é verdade, mas nem tudo está perdido. Mostrai a esses cordeiros desgarrados a graça dos amassos atrás do trepa-trepa, o esconderijo ofegante na casa das máquinas do elevador, as infinitas possibilidades da locadora da esquina, a alegria simplória da Sessão Corujão.
Encaminhai-os para um boliche, que seja, mas afastai suas bochechas rosadas dos vapores corrosivos dos metanóis. Pois nem toda a melancolia de um playground, nem todo o tédio de um salão de festas ou, vá lá, a pindaíba do espaço público simbolizada pelo churrasco na laje justifica a eleição de um posto de gasolina como ponto de encontro. Tudo, menos essa oficina dentária de automóveis, taba de plástico e alumínio, neon e graxa, túmulo do samba e impossível novo quilombo de Zumbi. Que futuro pode ter um amor que brota sob a placa “troca de óleo, ducha grátis acima de 100 reais”?
Dai a essa apascentada juventude o germe da revolta. Incitai-os a atirar pedras ou pintar muros, a tomar porres de Cynar com Fanta Uva, tal qual formicida, por amores impossíveis, ajudai-os a ouvir músicas horríveis, usar roupas rasgadas, a maldizer pai e mãe, a formar bandas punk ou fazer serenatas de amor. Eles têm todo o direito de errar, de perder-se, de ser ridículos. Só não podem, meu Pai, com as camisas para dentro das calças, pomada no cabelo e barbas bem feitinhas, amarelar a lira de seus vinte anos sob o totem luminoso das petroquímicas.
Salvai-me do preconceito e da tentação, oh Pai, de dizer que no meu tempo tudo era lindo, maravilhoso. Passei muitas horas molhando a bunda num ringue de patinação no gelo, ou vagando a esmo por shopping centers, aguardando a luz no fim do túnel de minha adolescência. Talvez fosse a mesma coisa. Talvez exista alguma poesia em passar noite após noite sentado na soleira de uma loja de conveniência, em desfilar com a chave do banheiro e sua tabuinha, em gastar a mesada em chicletes e palha italiana. Explicai-me o mistério, numa visão, ou arrancai-os dali. É só o que Vos peço, humildemente, no ano que acaba de nascer. Obrigado, Senhor.

retirado de http://blogdoantonioprata.blogspot.com/

5 comentários:

Gi Montemurro disse...

Poxa João!!! vc foi mais rápido =P hahahaha
mas é um bom texto mesmo ;)
Bom ver q o nivel desse blogui ta subindo hahaha =)


=***

mario el borracho disse...

Mui estimado, dileto e preclaro amigo João

Embora o texto seja de fato de alta relevância e muito interessante, embora de grande contundência para aqueles que, como eu, são adeptos fervorosos dos postos de combustível, eu ainda acho o Léo Corba mais interessante que o Antônio Prata. Talvez depois de 3 anos em BSB eu tenha começado a pensar como ele ou vai ver esse meu mau-humor é culpa da minha prisão de ventre, mas acho que acima de tudo, Léo Corba fala algumas verdades (e nós sabemos quais são) que não podem ser ignoradas.

Fábio disse...

Mil vezes mais o Léo Corba que esse tal de Antônio Prata...

j. caldeira disse...

bem, o primeiro que adivinhar aonde é que eu fui tomar cerveja hoje, vai ganhar uma dúzia de sete belo.

carlitos disse...

po joao, vc disse q o texto tem jeito de mario, mas o texto nao tem nada a ver com o mario, o texto eh bom! zoeira mario.