31 de jan de 2008

Cenas em um divã

Eu queria que tivesse sido diferente. Mas, sabe, todo mundo quer o diferente e sempre está em busca daquilo que possa lhe completar. No momento, não sou diferente de todo mundo. Por que a vida não pode mudar, e passar a se resumir num simples esquema “chave-fechadura”? Você tem um problema e, pronto!, lá vem a fechadura. Acaba tudo, pronto.

Ok. Minha mulher morreu.

Ela gostava de instalações. Não, não estou falando de fiação, “gatos” da TV a cabo... Falo de instalações de arte...Aquelas, então, em que há uma performance do artista... Ele é, ao mesmo tempo, criador e criatura, ativo, não-estático, vivo! Vivo! Vai acabar sua apresentação, vai se trocar no banheiro da galeria, vai pegar um ônibus e ir pra casa. Lá, não vai querer saber porra nenhuma de arte... Só de cuidar de seu gato chamado “Almodóvar”.
Ela também sabia fazer eu rir sem, para isso, precisar esta acordada. É que quando a via dormindo, percebia que sua testa franzia um pouco, assim como o nariz...Sei lá, achava engraçado! Ela acordava. E lá estava eu rindo. Hoje, acordei muito preocupado, não com os miados de um “Almodóvar”, nem com os gemidos dela... Vi que não tinha pago a conta de luz.

Ok, sei que sou novo.

Até posso encontrar outras coisas para me satisfazerem. Ontem, me matriculei num curso de cinema. Vou aprender a ver melhor os filmes do Woody Allen. Sempre pensei que cada um tinha que ver um filme como bem quisesse, prestar atenção no que quiser, interpretá-lo de acordo com o que sentiu... Mas, sei lá, não pega bem alguém como eu não saber o que há de tão cult assim no Woody Allen. Pra mim ele é um puta cara engraçado! Nunca vou me esquecer daquele cena em Love and Death, em que ele dá um salto, no papel de Boris Grushenko, em uma dança, e cai, pois seu joelho falhara... Minha mulher gostava mais dele em Noivo neurótico, Noiva nervosa. Também gosto desse filme, mas não mais agora. Pensando bem, gosto sim... A cena em que aparece Marshall McLuhan é demais!
Mas acho que esse curso vai ser bom. Quem sabe não faço mais amigos lá... Eu conheci a Ná num curso desses de férias... Acho que foi num sobre o existencialismo na obra de Simone de Beauvoir. Eu fui pro curso tendo lido apenas As Belas imagens. Aí falei que era sua obra-prima! Não sabia sobre Os Mandarins. A Nát se irritou, disse que nunca tinha conhecido um cara tão despreparado... refutei dizendo que estava lá justamente pra aprender, mas vi que seria melhor se disse que eu era um pouco dislexo e, assim, precisaria da ajuda dela. Se não fosse o existencialismo, hoje não seria viúvo!

Olha, não quero atrapalhar, viu? Se você tiver ocupado aí...Vai lá, depois a gente se fala!



_Não, não se preocupe. Sou seu analista, esqueceu?
_Ah é...É mesmo, né?