14 de set de 2009

Açúcar

Estavam os dois de bobeira naquele sábado, depois de uma conversa sobre uns setenta e cinco temas diferentes nada mais achavam pra falar. Um inseto, uma dessas formigas com asas, seja lá como chamam, caminhava no chão do quarto, devia ter entrado pela janela, o fato é que estavam no décimo quinto andar e um deles se divertia em pensar como o rapazinho chegara ali. Um verdadeiro exemplo de superação, afinal era um inseto brasileiro e não desistia nunca, ou alguma nova espécie, super potente e resistente, fruto de mutações genéticas acarretadas pelas mudanças climáticas da metrópole.
De qualquer forma tiveram que matá-lo, a princípio um deles se opôs à idéia mas seu companheiro ali já empunhava o tênis e descia a lenha no bichinho, e o inseto não morria. Sapatadas uma atrás da outra e ele continuava se remexendo, agonizando, e o desespero pelo martírio daquele artrópode se manifestava no outro moleque em forma de gargalhadas. “O bicho é imorrível”, gritava em meio às risadas, e seguiam-se os golpes até que o animal começou a ceder, “já deve estar vendo um túnel de luz com seus parentes insetos estendendo as patinhas”, disse o expectador enquanto enxugava as lágrimas. Era mesmo uma espécie selecionada, e os dois acabaram com ela ali mesmo naquele circo.
Subitamente uma secura na boca, uma fome desgraçada. Não imaginavam de onde teria vindo aquela seca, aquela ânsia de mastigar um alimento, senti-lo dissolvendo-se levemente na boca, mas aproveitaram a situação pra ter a idéia genial de visitarem uma doceria que abrira a pouco em sua rua, ali logo em frente ao prédio. Ficava numa espécie de microshopping a céu aberto, com um estacionamento largo na frente e em seguida as lojas em um patamar mais alto, eram uma farmácia, uma loja sei lá do que, uma outra que não tinha nada, e a tal doceria. Pingaram um colírio e partiram.
Ambiente familiar, belas crianças bem nutridas e rosadas sentadas com suas mães; umas meninas bonitinhas e arrumadas no melhor estilo “malhação”; algum carrinho de bebê, e agora dois carinhas entrando de chinelo havaianas. Estavam se achando meio deslocados ali, pensavam que todos olhavam-nos e viam que não estavam muito, vamos dizer assim, a caráter. Mas quando entraram no recinto perceberam que toda essa nóia não valia de nada, uma vez lá dentro se é um deles, contanto que se compre algo.
Era uma loja com seu interior totalmente branco; alguns detalhes nas paredes em rosa, uns morangos e pirulitos e alcaçus grandes pendurados; mesinhas circulares cor de madeira que lembravam castanhas ou biscoitos daqueles cookies; vitrines com várias prateleiras mostravam as tortas e bolos e bombas que pareciam dançar uma valsa. Sentiram-se como formigas em um pote de açúcar, ou como personagens de um jogo de videogame dos anos oitenta, achavam que iam morder alguma parte daquele imóvel, arrancar um pedacinho da parede e prová-lo, passando em seguida para a mesa, as cadeiras, o piso. Joãozinho e Maria teriam saído de lá correndo, aos prantos, recordando aquele traumatizante episódio da casa comestível que quase acabou mal. Mas para aqueles dois ali, ora, não viam bruxa ou caldeirão em parte alguma, eram sim bombardeados por estímulos que diziam sempre a mesma coisa: coma e seja feliz agora! Ali só o açúcar lhe saltava aos olhos famintos, escorria de toda aquela brancura mal lavada.
Repararam, em uma das vitrines, numa espécie de sorvete cheio de coberturas e camadas, algo como um bolo gelado, achavam finalmente uma parte do lugar para mastigarem. Após provarem um pouco de quase todos, escolheram seus sabores. Um pediu um belo pedaço de chocolate com calda de chocolate, sorvete de chocolate, bolo de chocolate, chocolate picado e uns bombons em cima; o outro pediu um de coco com sorvete de coco, coco ralado, bolo de alguma coisa que provavelmente tinha coco, coco queimado, e algo por cima que devia ser leite condensado.
E que espera maldita foram aqueles minutinhos até receberem as tigelas de plástico com as guloseimas, atacaram a coisa com ferocidade, como cães famintos sobre um naco de carne. Nem bem chegaram na metade e já estavam cheios, tiveram de largar o resto todo ali e resolveram pagar a conta, cerca de treze ou quatorze reais para cada. Um deles, indignado, não entendeu como pagara tão caro por uma experiência tão frívola, e o outro lhe explicou que o preço era por quilo e que ele devia ter pedido, já hipnotizado, bem mais do que podia comer. Ouviu, no entanto, que ele também havia pedido muito já que pagaram quase a mesma coisa.
Emfim, não entenderam bem de onde viera toda aquela fome, todo aquele ímpeto de mastigação, mas naquela noite um deles sonhou que o bichinho que mataram, aquele naturalmente selecionado, ressuscitava em tamanho gigantesco, entrava na doceria e destruía tudo, devorava as pessoas, e depois sentava-se e pedia um pedaço de torta holandesa.

Um comentário:

Max disse...

Uma frase sobre o brilhante conto do androceutico mais perdido de todos os tempos: larica das bravas.