22 de abr de 2009

A verdade, segundo Valdir.

Ao longo da semana passada, tentei entrevistar Valdir, um cidadão comum. Consegui o telefone dele na grande lista de nomes de pessoas comuns: a lista telefonica, que só não é tão democrática quanto parece, pois desconsidera aqueles que não podem ter uma linha telefônica.

Valdir dos Santos devem existir aos montes por aí. Mas quando elencamos nosso pretenso entrevistado como nosso personagem, estrela da matéria (reportagem), Valdir dos Santos é só um.

Liguei já no domingo. Eu sei, não é um dia bom para abordar quem quer que seja:

_Por favor, o Valdir está?
_Peraí! Ô paaaaaaaaii... pra você!
_Pronto! Quem fala?

Aí eu disse que era meio que um jornalista, tentando meio que uma entrevista com alguém meio que importante, segundo meus critérios. Ele não entendeu:

_Mas eu por que?

Disse que acreditava que alguém, ou melhor, todos nós temos muito a dizer ao espaço público e que eu, como meio que represento o meio midiático, deveria ajudá-lo a participar do debate público.

_Olha, seu... Qual a sua graça, desculpe?
_Bruno.
_Viu, seu Bruno... Eu até que queria, mas é que tô passando agora por um momento difícil, sabe... Minha mãe acaba de falecer.

Imediatamente pedi desculpas pela maneira como o abordara de forma inconveniente.
Mas ele garantiu que, na semana seguinte, cediria alguns minutos para virar personagem. Deixei estar.

No começo desta semana, retornei a procurá-lo. O Valdir de pronto se lembrou de mim:

_Oi, seu Bruno. Sim, até posso, mas não sei se vai ficar legal, sabe. Ainda não superei a perda de minha mãe. Sim, claro...uma semana não é tempo, mas é que pensei que na outra semana eu já ia estar melhor.

Eu disse que sem problemas.

_Não quer responder só uma pergunta, seu Valdir? Por telefone mesmo...

Ele topou, depois de berrar pro filho abaixar o som da TV.

_Seu Valdir, o que é superável para o senhor?

O silêncio dele, a propósito, superou minhas espectativas.

_Sabe, filho... Chega uma hora na vida que a gente vê que não consegue mais superar porra nenhuma!

Envergonhado, pediu imediatamente desculpas por ter proferido aquela palavra. Deixei Valdir em paz.

Um comentário:

Max disse...

Da série, grandes personagens e jornalistas com falta de cara de pau...