5 de jun de 2008

1,2,3. Corta!

Em uma das mãos, segurava dados, relatórios, estatísticas. Na outra mão, um velho casaco.

Não devia fazer frio.

Havia calculado com dedicação alguma coisa desimportante, e fazia questão de explicar com palavras difíceis as descobertas que, talvez, apenas lhe servissem como mera ocupação, maneira objetiva de reduzir qualquer pensamento mais íntimo e perturbador.

Enquanto ela se configurava em sua frente, com um olhar triste, mãos frias e um cansaço denunciado pelos ombros soltos e o quadril trepidante, ele tentava, sempre dedicado a nunca abandonar, em sua mente, algum projeto novo, prestar atenção naquela figura frágil e inquieta que lhe pedia uns minutos para conversarem.

Ela vestia-se bem, com uma desarrumação muita bem mensurada e controlada; ajeitava o colarinho da camisa, enquanto desajeitava-se na postura. Mas estava aflita. Não pelo frio que devia fazer naquela manhã. E não por alguma dor. Na verdade, forçava cada vez mais a tensão, apertando os pulsos, mordendo o canto de seu lábio inferior.

Os dois lá. Os cálculos, em papéis soltos na pasta dele, gritando e exigindo objetividade. Não precisava, sabia ele, esperar muito tempo para conseguir solucioná-los. Sem grandes dificuldades, em poucos minutos, sentado em sua escrivaninha, calcularia tudo, chegaria facilmente até um fim já esperado. Afinal, o que é um conflito matemático senão a batalha pela reconquista da eterna confirmação de certezas? Tropeçando nas palavras, chegando quase numa incomunicabilidade consigo mesma, ela respira:

_Tudo o que escondi de você...Eu te amo.

Os cálculos, os fins, os objetivos. Eram essas suas metas para aquele dia frio. Não sabia a resposta! “Devo dizer que não a amo? Devo dizer que sim? O que falar agora?” Sempre achara que, ao menos na sua vida, nunca conseguira um relacionamento seguro, porque jamais pôde amar alguém sem antes ter de fazer um esforço sem fim para amar. Corresponder ao amor seria forçar-se a se apaixonar, naquele momento? Essa coisa de amor, como se pega?

Sentaram-se num silêncio. Tocaram-se sem sentirem um ao outro. A dureza de um competia com o medo do outro. Ela chorou. Esperou e não obteve resposta.

Ele não soube como proceder. Sentindo-se impotente para agir sem fazer uso de qualquer conta, silogismo ou operação, defendeu-se da incerteza e do imprevisto como quem percebe que foi capaz de se fazer notável não pela grandeza de sua razão, mas pela descoberta de que passou a vida inteira tentando medir sentimento que sequer podemos chamar de “coisa”.

Um comentário:

Zine Qua Non disse...

Seus textos sempre me fazem pensar: o que pensar e no que pensar?