4 de mar de 2008

nem sei.

"_ No país onde sem-teto é invasor, todos direcionam sua atenção para uma só casa.
_ A do Big Brother.
_ Pois é...
_ Quem venceu a prova da comida, essa semana?
_ Você fala do reality show, ou da vida real?
_ Do programa...
_ Ah, não sei... Não vi essa semana.
_ Ah...
_ Mas na vida real, só sei que tem um povo aí que não vence nem com reza brava!"

* * *




Diante da vastidão virtual que se faz presente agora, posso caminhar para onde quiser: e o passado me guia e me pauta. O futuro só amedronta. A paz nunca foi tão volátil. E o inferno, nunca tão fascinante. Pois nos emocionam os desencantos, ao mesmo tempo em que nos preparam para a naturalização da desgraça. Tudo aceitamos, mas nada entendemos. Falta de assimilação; precisamos de tempo. E aí queremos voltar ao campo, voltar à agricultura de subsistência, voltar ao sedentarismo, voltar, finalmente à caverna! O primitivo é, então, o que está por trás desta nostalgia. Se pudéssemos voltar às cavernas, e começar tudo de novo, quem sabe dessa vez não daríamos certo?

A imagem que agora me ocorre: andando por um estreito caminho, que corta árvores e mais árvores, no meio de um bosque, ou algo parecido, vejo gente correndo e ouço um som que tenta ser música. O desespero estampado no rosto das pessoas não é compatível com o resto de seus corpos; correm, sim, mas como se estivessem correndo para uma maratona. Agora, eu é que fico espantado, pois, vendo que algo lhes perturba, penso que deveriam correr mais rápido e se esconderem. Corram! Por que não correm mais, se estão com medo? O que lhes impede de fugir da agonia, da angústia, do medo?

_ Talvez, diz uma voz em minha mente, estejam todos condenados a sofrer desse jeito.

É gente que tromba com gente. É gente que, na liberdade, só sabe trombar com gente. Tamanha é a liberdade que temos neste porão! A esmola que nos concederam não nos permite comprar aquele carro ou aquele apartamento, amor. Mas acho que já podemos comprar a chave que abrirá a porta deste porão. Sairemos, sim, sairemos e, então, amor, poderemos correr, pois só de correr já entenderei essa liberdade que nos dão é perigosa, se eu não prestar atenção. Se eu cair, a liberdade me permitirá levantar, e a realidade, fazer eu sentir a dor. Não posso fazer nada; meu caminho é impenetrável, só eu posso seguí-lo, e dele não posso desviar-me. Assistindo a toda aquela cena, de repente tudo entra nos eixos. Os rostos não dizem mais nada; e o som se faz música. Ainda está de noite.









Um comentário:

Max disse...

Texto 100% Pierro.
Logo fora da compreensão humana.