15 de mai. de 2008

Em um mau ambiente*

*Texto de Jânio de Freitas publicado hoje na Folha de S. Paulo



MARINA SILVA teve motivos para renunciar muito antes, ainda no primeiro mandato de Lula, e devia tê-lo feito. Depois de contrariedades, desautorizações e críticas ostensivas, como as que Lula lhe fez, entre tantas outras, a pretexto dos transgênicos e da licença ambiental para hidrelétricas no rio Madeira, Marina Silva não tinha por que esperar a humilhação de ver um trabalho seu entregue ao comando de quem não deu a perceber, jamais, o menor conhecimento de meio ambiente e, ainda menos, de Amazônia. O gesto de Lula, sem justificativa real ou ao menos para guardar aparências, foi uma declaração de falta de confiança.Por seu lado, Lula agiu com uma falta gritante de respeito humano. Sua lengalenga posterior, tão suave e sentida, mais acentua do que disfarça a humilhação pública que praticou. Se, em sua comparação, a renúncia de Marina Silva lembrou-lhe a surpresa e a perda no dia em que um filho sai de casa, esse filho fez muito bem em ir para longe de tal pai.À parte sua brutalidade, tem um sentido grave a transferência do Plano Amazônia Sustentável, do Meio Ambiente para a Secretaria de Assuntos Estratégicos de Longo Prazo e também de agora mesmo. Significa o avanço que obtêm, no governo e em Lula, concepções militaristas (de características mais de primeiro mundo do que brasileiras) e suposições belicosas como perspectivas do Brasil. Lula se chega a Médici, não só por sua adesão ao "ninguém segura este país", mas também pelo "Brasil Grande" e o "Brasil Potência", que, no dizer de Nixon, fará a "América Latina ir para onde o Brasil for".Ao aceitar o lugar de Marina Silva, Carlos Minc aceita a restrição a políticas ambientais suas para os problemas da Amazônia. Se foi informado de tal condição do convite, não se sabe. Sim ou não, leva ao mesmo: a probabilidade de problemas. Lula se interessou pela rapidez, também vista como certa afoiteza, com que Minc decidiu dificuldades de licenciamento ambiental para algumas obras no Estado do Rio. Mas Carlos Minc não é só -ou até aqui não foi só- um político/administrador de atividade ininterrupta, determinada e rápida. Minc conhece o seu assunto e nele tem idéias consolidadas. Se também tem disposição para concessões, ou não, é o que veremos agora.A ida de Carlos Minc para o governo federal segue uma regra que já se torna tradição: de um jeito ou de outro, o Rio perde. Secretário estadual de Meio Ambiente há um ano e quatro meses, Minc fez trabalho bom e assim reconhecido, inclusive pela disposição com que iniciou a recuperação de áreas ambientais maculadas por invasores ricos, sobretudo no litoral mais valorizado. Não era mesmo uma atividade que prospere no Rio.Fica à disposição de interpretações o comunicado de Lula: "A política ambiental do governo não mudará em nada". Com a Amazônia entregue a pretensos estrategismos aquartelados e um presidente só interessado em rápidas licenças ambientais, não se sabe se Lula fez apenas outra frase sem sentido ou uma ameaça.

14 de mai. de 2008

Resenha - O nascer de uma lenda

Quase dois séculos após ter sido publicado pela primeira vez, Frankenstein ou O moderno Prometeu (1818) da britânica Mary Shelley continua a assustar e fascinar leitores de todas as idades, além de continuar a influenciar quase todos os autores do terror moderno. O livro, inicialmente publicado sem o nome da autora após dois anos de ter sido escrito, teria duas republicações, em 1823 e 1831, após revisões, adição de um prefácio e mudanças feitas pela autora até chegar a sua edição definitiva.
A história pode ser geometrizada como duas linhas que possuem alguns pontos em comum. Na primeira linha narrativa, a principal personagem é o capitão R.Watson, que através de cartas a sua irmã na Inglaterra conta suas aventuras em um navio explorador com destino ao Pólo Norte. A segunda linha é o Doutor Victor Frankenstein, um brilhante cientista de Genebra, que após o fracasso em uma de seus experimentos, corre o mundo para destruir o mal que criou para seus semelhantes. As linhas se encontram quando o navio de R.Watson encalha no mar congelada e logo após o descongelamento, resgatam o Doutor Victor Frankenstein que conta a sua história para R.Watson, que transcreve para a sua irmã. E assim como acontece na geometria, Watson e Frankenstein se afastam novamente, deixando Watson como personagem principal mais uma vez.
Esse processo de se criar uma história inicial-final (R.Watson), que acaba servindo de moldura para a principal (Victor) é chamada de narrativa moldura e é uma das principais características do terror gótico, movimento que Frankenstein é um dos percussores. Outros livros do movimento são O médico e o Monstro (1886) de Robert Louis Stevenson, O retrato de Dorian Gray ( 1891) de Oscar Wilde e Drácula (1897) escrito por Bram Stoker, onde novamente o leitor primeiro é introduzindo num universo intimista para depois ser assustado com as descrições quase realistas.
O mundo criado por Shelley rendeu inúmeras adaptações nas mais diversas mídias, apesar disso, seria na sétima arte que a obra de Shelley ganharia suas maiores adaptações, mesmo com algumas modificações. A primeira delas foi filmada em 1910 pelo inventor Thomas Edison, porém seria na versão de 1931, dirigida por James Whale, que o monstro tomaria as formas definitivas no imaginário popular: cabeça chata, parafusos no pescoço e na cabeça e extremamente lento e burro, mesmo com o livro não revelando detalhes da anatomia da pesquisa de Victor, que é narrado como “extremamente ágil” por Shelley.
Outra “falha” criada devido ao grande número de adaptações que o livro recebeu é em relação ao nome da Criatura ou Monstro, filho da pesquisa do doutor Frankenstein. Para a grande maioria das pessoas, o nome do monstro é Frankenstein, porém em nenhum lugar do livro Victor ou qualquer personagem dá um nome à Criatura, mas para alguns leitores e críticos o monstro “herda” o sobrenome de seu criador uma vez que vêem em Victor o “pai” e “mãe” da criatura.
Nos anos seguintes, Frankenstein voltaria às telonas em outros filmes que pouco respeitariam o enredo original. Por exemplo, Frankenstein se depara com outros monstros clássico na versão de Frankenstein Encontra o Lobisomem (1943) ou no mais atual Van Helsing (2004) . Peter Cushing, dirigido por Terence Fischer, dá nova vida ao monstro em Frankenstein tem que ser Destruído (1967), onde Victor Frankenstein é reduzindo a um lunático chantagista atrás de mortos para seus experimentos. O monstro também mal aparece em: Frankenstein(1984), de James Ormerod, onde a beira da morte, Victor Frankenstein conta sua vida a um padre e Gothic(1987) de Ken Russell que conta a noite que Shelley deu vida a sua obra-prima. Essa seria também o roteiro usado para a filmagem de Frankenstein de Mary Shelley ( 1994), onde Robert De Niro dá voz ao monstro.
Ao todo, 14 filmes possuem alguma relação direta com a obra. Isso sem contar relações indiretas, como Edward Mãos de Tesoura (1990), do Tim Burton. O livro virou até novela de televisão e foi apresentado no SBT.
Mas qual seria o motivo para a história de Victor Frankenstein e sua criatura fazer sucesso até os dias atuais?
Uma das respostas pode estar no subtítulo do livro: "o moderno Prometeu" que é um titã grego, misto de deus menor, herói e ancestral, que com a ajuda de outros titãs recebe a incumbência de criar todos os animais do mundo, mas sua história mais conhecida é de quando roubou o fogo divino e o entregou aos mortais. Victor é Prometeu no primeiro momento da história, ao dar vida a sua criatura, e sua cria acaba se tornando um representante da humanidade que nasce ignorante, mas consegue se transformar sem a ajuda de seu criador. Não é a toa a citação de Jonh Milton como epigrafe:
“Acaso, ó Criador, pedi que do barro
Me moldasse homem? Porventura pedi
Que das trevas me erguesses?”

É disso, afinal, que se trata o romance: a pesquisa da centelha vital, capaz de dar vida aos mortos, a contrapartida biológica da alquimia da pedra filosofal. É neste sentido que "Frankenstein", o monstro, se torna a alegoria dos resultados da ciência moderna e Frankenstein, o médico, se torna, por seu lado, numa alegoria do desejo humano de transcender a própria condição humana, desejo esse presente desde a pré-histórica até à mais recente engenharia genética.
Com os atuais esforços da biomedicina, muito se fala na real possibilidade do surgimento da vida a partir de células mortas ou da criação uma pessoa a partir de células de outras pessoas. Porém, até esse dia chegar, a leitura que deu origem a um dos maiores mitos da literatura e do cinema merece ser lida.

Lula fala à "Der Spiegel"

O presidente Lula foi entrevistado pela revista alemã Der Spiegel.


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11 de mai. de 2008

Pepê, já tirei a vela!

Acabei de chegar para trabalhar. Mas não conseguia entrar na empresa, pois, mesmo após passar pela portaria, onde havia um segurança ainda novo em sua função, uma grande porta de aço, toda blindada e imponente, bloqueava o caminho que me levaria ao meu setor.

O segurança, que disse que era sua primeira vez lá, pegou um molho de chaves e subiu comigo até a grande porta, cercada por câmeras. Verificamos que ela não podia ser aberta por chaves: segundo um outro segurança, que foi acionado por nós via nextel, a porta só podia ser aberta se entrássemos em contato com a central de segurança que, de lá, acionaria um sistema automático de “destravamento”. Tudo por meio de "acionamentos" e "desativações", de acordo com ele. Nossa, que tecnologia!

Entramos em contato com a central. Dei alguns dados sobre mim. E eles confirmaram que a porta logo mais seria destrancada. Pensamos, eu e o novato segurança, que um computador acionaria o dispositivo da porta.

Mas enquanto esperávamos a tecnologia entrar em ação, estando nós ansiosamente colocados defronte à panóptica porta de metal (que além das câmeras possuía uma janelinha que, para quem está de fora é um espelho – estilo aquelas salas de interrogatório que vemos no cinema), eis que ouvimos um barulho de chaves, indicando que o sistema não era tão futurista assim. A porta abre. Uma moça dá “bom dia, desculpa pela demora”. Ela tira a chave da fechadura, a porta agora está fechada novamente. E agora estou trabalhando.

9 de mai. de 2008

Pra colocar o rabo entre as pernas...

Folha de hoje:

Nada se salva no 2º filme do Casseta & Planeta

INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA

Membro da trupe do Casseta & Planeta, Marcelo Madureira afirmou com elogiável ousadia que "Glauber Rocha é uma merda" (a referência talvez não seja literal e, de todo modo, diz respeito aos filmes e não à pessoa de Glauber).Que dizer? Talvez Marcelo Madureira ainda não tivesse visto "Casseta & Planeta - Seus Problemas Acabaram!" (TC Pipoca, 20h30), que renovou o conceito de "merda", cinematograficamente falando.São aqueles planos mal formulados, aqueles comediantes comportando-se em cena como se estivessem em um estúdio de televisão, aquelas compilação de piadas mumificadas, o conjunto descosturado.Tudo é tão canhestro no cinema do grupo de humoristas que não poderia ser comparado nem a Renato Aragão, cujo talento quase sempre apanhou do cinema, embora se manifestasse na TV.Nem muito menos às boas chanchadas de Oscarito e Grande Otelo, ou a Mazzaropi. Já Glauber é outro planeta.



*Araújo se refere à reportagem (reportagem?) de capa deste mês da revista Bravo, segundo a qual Glauber Rocha está num "fogo cruzado". (risos)

Dica 2

Caros Amigos realizou uma entrevista com Frédéric Gros, um filósofo francês especialista em Michel Foucault, abordando, principalmente, a Guerra nos dias atuais.

Uns trechos:

“O antigo sistema de guerra pressupunha uma série de distinções: entre o exterior e o interior, entre o inimigo e o criminoso etc. Os conflitos pós-modernos vão pressupor atores novos: mercenários, organizações não-governamentais, exércitos internacionais, máfias. É uma nova lógica que se forma. Enfim, falo de um princípio de midiatização para referir a importância da imagem nos conflitos contemporâneos: é por ela que se decide o sentido das novas violências. O que chamo de "estados de violência" é, portando, o que é preciso descrever na atualidade contemporânea”.

“Tudo seria linguagem, comunicação, transmissão de códigos: a troca de bens, o casamento, a reprodução sexuada etc. Então, o homem, como núcleo central do saber, desaparece. O que significa para Foucault que a "natureza humana" remete a uma questão cultural precisa, mas não ter pertinência nem universal, nem trans-histórica”.


A entrevista está muito interessante e pode ser lida, integralmente, no blog do Catatau.

Vale a pena!

Clique aqui para ler

Dica Androceu

Na Folha de hoje:


Livraria da Vila e Maria Antonia iniciam discussões sobre música

DA REPORTAGEM LOCAL

A bossa nova, que neste ano comemora 50 anos, ganha programação festiva de hoje até 16/5, na Livraria da Vila (al. Lorena, 1.731, Jardins, tel. 0/xx/11/3062-1063). A Semana da Bossa Nova começa hoje, às 19h30, com bate-papo com o escritor Ruy Castro, colunista da Folha. Em seu livro "Chega de Saudade", Castro fez vasta pesquisa sobre o movimento musical brasileiro, protagonizado por nomes como João Gilberto e Tom Jobim.
Na terça-feira, dia 13/5, é a vez do compositor e violonista Arthur Nestrovski, articulista da Folha, fazer uma aula-show sobre Tom Jobim (1927-1993). A programação da livraria tem ainda a cantora portuguesa Eugênia Melo Castro (amanhã, às 21h), Julio Medaglia e Lucia Richer (domingo, às 18h), Danilo e Teté (12/5, às 19h30), Silvia Góes (14/5, 19h30), Bettina e Eddy Marcos (15/5, às 20h) e Patty Ascher (16/5, 20h).
A entrada é gratuita e, para participar, é preciso se inscrever na página www.livrariadavila.com.br.

Maria Antonia
A música brasileira também é um dos principais temas da revista "Cultura e Pensamento", cujo lançamento acontece hoje às 20h, no Centro Maria Antonia (r. Maria Antonia, 294, tel. 0/ xx/11/3255-7182).
Haverá um debate com Alfredo Manevy (doutor pelo Departamento de Cinema da ECA-USP), André Gardel (músico e professor na UniverCidade, no Rio) e Walter Garcia* (professor da PUC-SP), que discutirão o tema "Adeus à MPB?". A entrada é gratuita. Mais informações: www.usp.br/mariantonia.


*E autor do disco Foi gol mas o juíz não viu. Cópias disponíveis com o autor deste post.