9 de jun de 2010

Leveza, peso e Kundera

Alex Kundera já observara, em A insustentável leveza do ser, que os dramas da vida podem ser explicados pela metáfora do peso. Carregamos um fardo. Ou estamos leves diante de uma situação. A barra está pesada. Ou as implicâncias apenas se equilibram com uma pluma.
Mas talvez o “fardo” maior, aquele que determina aquilo que consideramos pesado na vida, seja a insistência que há, em cada um de nós, em realizarmos o eterno retorno. O mito segundo o qual um dia tudo o que vivemos poderá ser repetido. Kundera:

“Se a Revolução Francesa devesse repetir-se eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre”.

Assim, aquilo que não mais voltará, não passa de palavra, memória, é registro; não causa mais medo: é leve. “As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia, inclusive a guilhotina”. Ora, ao entrar no âmbito do efêmero, as coisas parecem perder-se diante daquilo que realmente são; sequer uma guilhotina pode ser condenada.

Kundera:

“Não há muito tempo, eu mesmo fui dominado por este fato: parecia-me incrível, mas, folheando um livro sobre Hitler, fiquei emocionado diante de algumas de suas fotos; elas me lembravam o tempo de minha infância; eu a vivi durante a guerra; diversos membros de minha família foram mortos nos campos de concentração nazistas; mas o que era a morte deles diante dessa fotografia de Hitler que me lembrava um tempo passado de minha vida, um tempo que não voltaria mais?”.

Não é raro, lembramo-nos de situações desagradáveis do passado, pelas quais, não sabemos explicar, sentimos um desejo de retorno, mesmo que, à época, jamais pensaríamos de tal maneira. A eternidade tende à leveza que, por sua vez, é uma idéia perigosa. Cristo foi pregado à cruz apenas uma vez, mas aquele instante da crucificação pertence à eternidade; perdeu o sentido.

Fica mais leve que o ar. Os movimentos se distanciam da terra. De tão livres, tornam-se insignificantes.
A dificuldade está em perceber que o eterno retorno é o mais pesado dos fardos. Mas o peso é ruim e a leveza é boa? Kundera: “Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino”.
Daí que: “o fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital”.

Mais do que meras digressões filosóficas, estamos diante de questões que merecem atenção, simplesmente por tratarem do absurdo da existência humana.

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