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2 de dez. de 2010

Paul McCartney: Show? Não, experiência de vida

Nota do editor: Esse texto foi publicado originalmente em 28/09/10, alguns dias antes da confirmação do show em São Paulo e Porto Alegre. 

De acordo com a diretoria do São Paulo, o estádio do Morumbi já conta com duas datas agendadas para receber os shows de Paul McCartney no Brasil. Mas enquanto o contrato não estiver assinado e o artista não divulgar a informação, eu não acredito – afinal, o São Paulo é aquele clube que não consegue confirmar nem o próprio técnico…


Se eu fosse você, porém, ia a uma mesquita na sexta, a uma sinagoga no sábado e à igreja no domingo. Reze para todos os deuses, independente do nome, para que a notícia seja confirmada de fato. Porque assistir a um show de Paul McCartney é mais do que apenas um espetáculo de entretenimento; é algo transcendental, como a religião.



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15 de nov. de 2009

Geisy: Behind the Mask




Estas são as curvas escondidas por debaixo do vestido mais polêmico do Brasil. A opinião do autor (não necessariamente endossada pelo blog Androceu) a respeito do objeto de análise:



13 de ago. de 2009

A Vida é uma Bósnia III²

Depois de um tempo (35 minutos cronometrados no relógio, ou os 20 minutos bósnios mais longos da minha vida), a caminhada acabou. O ponto final, que na verdade era o ponto de encontro para o início da marcha, era em frente à escola da cidade, um prédio não muito maior do que uma casa, diferenciando-se apenas no estado: estava inteiro, recém-reformado, mas ainda sem a pintura. As casas, ao contrário, ainda mostravam as cicatrizes da guerra – marcas de bala e de explosões, principalmente.

Do lado da escola havia uma casa cujo segundo andar a organização do evento usava para dar seus recados, todos em bósnio, amplificados por uma caixa de som improvisada. Logo em baixo, na rua ainda de terra e pedras, havia uma mesinha em que pessoas poderiam retirar um crachá (que, mais tarde, eu descobri que seria a chave de entrada para dormir no acampamento em Potočari, a última noite da marcha). Fui lá procurar Omerović, a pessoa que levaria minha mochila para Srebrenica. Reconheci algumas pessoas da mesa, mas ele não estava lá. Uma delas telefonou para Omerović e, em menos de um minuto, ele estava ali na minha frente.

-Venha comigo, ele disse, suando mais do que quando eu o conheci.

Omerović levou-me para uma casinha próxima à aglomeração, e pediu que eu deixasse minha mochila ali junto com outra dezena que estava no chão.

-Algumas vans e caminhões vão levar o material das equipes de televisão que vão acompanhar a marcha, mais bagagens de outras pessoas. Eu colocarei a sua lá também. Se você precisar pegar alguma coisa depois, pode ligar no meu celular no primeiro acampamento. Eu também vou participar da marcha e estarei lá no fim do dia.

Maravilha. Estava 12 quilos mais leve e razoavelmente despreocupado com o futuro de todas as minhas coisas, inclusive meu laptop, que estavam na mochila. Omerovic estava inquieto, e ainda tinha muito o que fazer. O início da marcha estava marcado para as 9h00 e naquele momento, às 8h20, a organização corria para fazer tudo funcionar até a hora planejada. Despedimo-nos brevemente e ele sumiu no meio da aglomeração.

Fui procurar os alemães que seriam meus melhores amigos nos próximos dias. Eles não estavam mais no lugar onde paramos. De repente, Jonas apareceu e me levou ao novo ponto. Todos estavam ali: John, Sarah, a escritora, Antonia, outra alemã que estava na Bósnia fazendo serviço social e morava com Jonas e John na periferia de Tuzla, e o homem que os acompanhavam, Kadia Muhić. Jonas fez as apresentações, e o papo ficou para depois – todos estavam cansados pela caminhada ladeira acima rumo a Nezuk, e, além do mais, sabíamos que teríamos muito tempo para conversar.

Ao nosso redor, havia todo o tipo de gente. Homens, mulheres, magros, gordos, velhos, crianças com seus 10 anos, moradores de Nezuk (era fácil identificá-los: eles não carregavam nenhuma mochila, estavam mais arrumados do que o resto, e observavam de longe a todos), estrangeiros como eu, jornalistas e suas equipes fazendo entrevistas e capturando imagens, bandeiras (muitas da Bósnia Herzegóvina e da Federação, algumas da Turquia, uma da Palestina, uma semelhante à da Arábia Saudita, verde com mensagens em árabe, e uma, branca, com “Srebrenica – 1995”, rodeada de fotos de homens com seus nomes logo abaixo – provavelmente vítimas do massacre), e uma classe especial: as pessoas de camisa laranja com os dizeres na parte de trás:

Učesnik Marša Smrti Jula 1995

A tradução, em inglês, vinha logo abaixo: Participante da Marcha da Morte – Julho de 1995. Em outras palavras, aquilo dizia: sou um sobrevivente.

Às 9h10, um dos organizadores pegou o microfone e começou a falar. Todos prestavam atenção. Eu não entendia nada, mas pelo jeito ele anunciava o início da marcha. Quando havia uma pequena pausa, Jonas me dava o resumo:

-Ele agradece a todos pela presença e diz que é muito importante que todos estejam aqui pela causa de Srebrenica.

-Ele pede para que não haja provocações, principalmente religiosas, já que nem todos aqui são muçulmanos, e que também as pessoas não se envolvam em confusões no meio do caminho com sérvios e policiais.

-Eles estão rezando.

-A marcha vai começar agora.

11 de ago. de 2009

A Vida é uma Bósnia III

Acordei às 5h00, para tomar aquele que eu já tinha certeza que seria meu último banho nos próximos dias – e, de fato, foi mesmo. As mochilas já estavam arrumadas e separadas: uma, com toda a tralha trazida do Brasil, e outra com meus suprimentos para a marcha: câmeras, um caderno de capa dura, um caderninho comprado em Srebrenica, caneta, gravador, uma camisa, uma cueca, um par de meias e uma calça de ginástica. No corpo, a camisa mais leve à disposição, uma calça de ginástica, óculos e meu all-star nos pés. Não era o ideal para andar 120 quilômetros, mas eu não tinha muito mais opções.

O café da manhã seria servido às 6h30, então fui procurar meu transporte com o que tinha no estômago: uma pizza, uma panqueca de chocolate com sorvete e uma coca-cola, ingeridos na noite anterior. Eu não tinha comprado nenhuma comida, nem mesmo uma garrafa de água mineral. Àquela hora, seria impossível conseguir algo. Além do mais, uma pequena aglomeração já se formava no local combinado onde sairia o ônibus. Não havia tempo para mais nada, apenas pagar o hotel e arrumar um lugar.

Eram quatro ônibus ao todo. Às 5h40, pouca gente tinha entrado nos veículos. A primeira coisa a fazer era achar alguém que falasse inglês para me explicar o que eu deveria fazer para conseguir um lugar. Com algum custo, encontrei um rapaz, que falava pouco, mas o suficiente para mim: eu devia assinar meu nome, cidade e data de nascimento em uma lista que estava circulando, e pegar uma espécie de credencial para entrar. Cinco minutos depois, eu já estava no ônibus, sentado ao lado de um adolescente de uns 16 anos que não entendia nada do que eu dizia.

A viagem até Nezuk durou 40 minutos. Ou melhor, a viagem até o início de uma estradinha de terra e pedra que levaria a todos até Nezuk durou 40 minutos. O resto do caminho teria que ser feito a pé, porque seria impossível os ônibus trafegarem por aquele lugar estreito, que já estava um caos: pessoas e carros subindo, carros descendo, e uma lama que dava pistas que havia chovido na noite anterior.

Ao descer do ônibus, um grupo de jovens (duas meninas e três meninos, nenhum com mais de 18 anos aparente) veio em minha direção. Um deles falou, em inglês:

-Se você quiser, pode ficar com a gente.

Era tudo o que eu precisava, um grupo. Não pensei duas vezes, e segui com eles os primeiros passos de uma caminhada que duraria 20 minutos. Pelo menos foi o que eles haviam ouvido e repassado para mim.

Eu só conversava com Ramo, um dos rapazes do grupo – os outros não entediam inglês, e conversam entre eles sem dar muita atenção a mim. Todos estavam participando da marcha pela primeira vez. A razão para tal era aquela que a organização do evento esperava de todos: chamar a atenção do mundo para Srebrenica. Ramo e sua turma tinham mais um motivo para participarem: a aventura em si, de estarem fora de casa para percorrerem um caminho que nem eles tinham a noção exata – e muito menos eu.

Entre risadas e papos exaltados, Ramo foi desviando suas atenções para o seu grupo, e eu me isolava deles. Poucos minutos depois, alguém do meu lado, em inglês claríssimo, disse:

-Você estava no ônibus de Tuzla, né?

-Sim, sim.

-Eu me chamo Jonas. Eu vi que você parecia um pouco perdido e precisava de alguém que falava inglês no ônibus. Você já conseguiu o que queria? Está tudo certo?

-Sim, sim. Na verdade, eu queria saber o que eu precisava fazer para entrar no ônibus para vir para cá.

-Bom, se você precisar de alguma coisa, é só pedir. Estou eu e mais três amigos, e mais aquele homem que está logo ali na frente.

Jonas Engelbreth é alemão, nascido em Berlim, e estava na Bósnia desde dezembro de 2008, fazendo trabalho social em uma ONG. Vivia e trabalhava na periferia de Tuzla, com “jovens problemáticos”, nas palavras dele. Tinha 24 anos, mas aparentava menos. Era franzino, cabelos louros e bem curtos, algumas espinhas na pele e uma mancha no dente da frente, causada provavelmente pelo cigarro – em 15 minutos, sacou dois de seu maço Drina e fumou sem ofegar.

Eu, sem fumar, não conseguia sequer conversar direito. Estava com uma mochila de pelo menos 12 quilos nas costas e outra de dois na frente, subindo um caminho que não dava pistas de acabar, suando como um maratonista graças ao céu poético, sem nuvens, e com um sol de rachar, coberto em alguns momentos pelas árvores que estavam por todo o lugar. E a marcha nem havia começado ainda.

-Mas o que você está fazendo aqui?, Jonas me perguntou. Expliquei o de sempre, adicionando à explicação que havia sido convencido a estar ali por uma pessoa que eu conheci em minha primeira visita a Srebrenica – a pessoa que iria levar meu fardo de 12 quilos direto para a cidade e ia me deixar mais livre, leve e solto.

-Você deveria falar com uma das meninas que está aqui com a gente, a Sarah. Ela também está escrevendo um livro.

Sarah não estava à vista. Em compensação, um dos amigos de Jonas nos alcançou. Era Jonathan, ou simplesmente John, como ele mesmo se apresentou. Logo de cara, John me chamou a atenção. Provavelmente eu era o único brasileiro naquela caminhada, mas ele era, certamente, a única pessoa usando uma camisa escrita “Brasil”.

John também era alemão, e estava na Bósnia desde fevereiro, também fazendo trabalho social na periferia de Tuzla. Antes de chegar ao país estava na Inglaterra, mais precisamente em Brighton, estudando e morando com a namorada, que, adivinhe, era brasileira, filha de pai inglês, e vivendo há uns bons anos na Europa.

-Mas e vocês se comunicam em que língua?, perguntei.

-Não há língua para o amor.

O humor britânico encontra o humor brasileiro. E eu tinha acabado de encontrar um cara que valia à pena tomar umas cervejas junto.

4 de ago. de 2009

A vida é uma Bósnia - II

O calor era infernal. Não havia nuvens do céu. As ruas estavam quase vazias às 15h00, quando eu ainda tentava me acertar com o mapa e descobrir mais alguns pontos famosos na parte histórica da cidade. Poucos turistas se dispunham a andar sob o sol que batia direto na cabeça. Eu não era propriamente um turista, mas juntei-me ao time. O ímpeto desbravador pediu licença e o hotel foi meu próximo destino.

Os Beatles tocavam no meu laptop enquanto eu descansava, ora olhando para o teto, ora decifrando caminhos no meu mapa. Eram 18h30 quando um canto vindo de fora, forte, eminentemente masculino, começou a encobrir Paul McCartney. O calor, aliado ao cansaço, impossibilitava qualquer movimento até à janela para tentar descobrir o que acontecia. Passaram-se cinco, dez minutos, e o som continuou, perdendo a intensidade pouco a pouco. Levantei. Não era possível avistar nada de onde eu estava, mas senti que as vozes vinham da rua que dava de frente para minha janela. Pedi licença, dessa vez a John Lennon, e, de bermuda e chinelo, desci para checar com os próprios olhos.

Logo na saída do hotel, dava para perceber que algo grande estava acontecendo. A avenida que terminava no meu endereço em Mostar estava tomada de gente. Atravessei e fui guiado pelo som, que ficava cada vez mais forte. Carros, só os que já estavam estacionados. Já conseguia captar detalhes de quem estava na linha de trás do grupo que andava no meio da rua - só homens, a maioria sem camisa e com uma garrafa ou copo de cerveja na mão. As pessoas na calçada, nas lojas e cafés pelo caminho paravam e davam atenção. Nenhuma tinha medo ou qualquer sentimento do tipo no olhar.

Continuei seguindo. De repente, eles pararam de andar. Eu os alcancei. Eram por volta de 300. O canto parou. Todos agacharam, menos um. O lugar escolhido foi estratégico: um cruzamento, entre o lugar que estávamos e outra avenida, de mão dupla. Aquilo chamava muita atenção. Policiais bloqueavam o transito, ao mesmo tempo em que vigiavam o grupo de certa distância.

O silêncio durou pouco. Quem estava de pé gritou algumas poucas palavras. Os outros responderam, economizando na frase mas não no fôlego. Veio outra incitação. Mais uma resposta em uníssono. Então, veio o chamado às armas, e todos levantaram, sem sutiliza alguma. Pulos, gritos, palmas e histeria. Uns jogam longe o copo de cerveja que têm nas mãos. Algumas garrafas saem rolando também. Outro, mais desinibido, abaixa as calças e mostra a bunda para os motoristas que aguardam aquela manifestação. Eu acompanho tudo da calçada. Desvio o olhar para ler o que está escrito em um cartaz pregado em uma árvore: HŠK Zrinjski (Mostar) x ŠK Slovan (Bratislava).

O campeão da liga da Bósnia Herzegovina contra o campeão da Eslováquia, ambos disputando uma vaga na Copa dos Campeões da UEFA. Eu não podia perder isso.



Gustavo Silva ganhou uma camisa retrô da torcida organizada do HŠK Zrinjski e promete acompanhar os resultados do time no próxio campeonato da Bósnia Herzegovina.

28 de jul. de 2009

A vida é uma Bósnia

No ônibus, há uma senhora sentada ao meu lado. A bem dizer, mais da metade do ônibus é composta de gente que passou dos 50 há um bom tempo. Mas voltando: ela carregava uma sacola, do tipo de feira. Tirou de um saco plástico um pacote pequeno de salgadinho, tipo Elma-Chips. É o Chipsy. Jurava que era batatinha. Não era. O formato é algo como uma concha, fechada, oca, leve, trançada, quase transparente. O sabor indicado na embalagem era queijo e cebola, o visual era de nada e o gosto era de tudo, menos de queijo e cebola. Resumindo: era horrível. Recusei da primeira vez que ela me ofereceu, mas só por educação - estava a fim de provar aquilo. Detestei. Ela colocou o saquinho na minha direção de novo. Recusei, balançando a cabeça negativamente, dessa vez porque era ruim mesmo. Ela falou alguma coisa e continuou com o pacote na minha frente. Peguei mais um e comi. Acabei e ela insistiu para pegar mais um. Tentei um hvala [obrigado], mas não deu certo. Comi bem devagar, porque reconheci que aquela batalha era perdida. E ela estava indo para Srebrenica, ou seja, sabe como uma guerra funciona. O processo se repetiu uma duzia de vezes. No fim, a senhora não queria mais, e me deu o pacote. Tive que comer. Quando sobraram só dois, foi a minha vingança: sugeri para ela pegar um e eu o outro. Insisti. Ela apontou para mim, fez alguns gestos. No fim, o que entendi foi: você é bem magrinho, precisa comer, menino!, e então ela se recusou a comer o último dos salgadinhos. Em plena Bósnia Herzegóvina, achei uma avó.

Gustavo Silva esteve na Bósnia Herzegóvina por 3 semanas e passou por algumas das experiências mais surreais de sua vida. Para saber de outras histórias, aguarde até o final do ano, quando A Vida é uma Bósnia será lançado simultaneamente nas livrarias, bibliotecas, cinemas, locadora, açougues e supermercados Pão de Açucar.

6 de nov. de 2008

(n)O meio (t)É(m) a Mensagem



-Pô, mas eu não consigo ler porra nenhuma!
-É só clicar no ícone que ele fica grande, ignorante.
Gustavo Silva é seguidor dos ensinamentos de Gil e é contra o estrupo (sic) de layouts, mas se for de levinho e por uma boa causa, ai vale vale tudo. Só aquilo que não.


29 de abr. de 2008

A Sampa das Perversões Imorais


Há quase três décadas, Caetano Veloso cantava, acompanhado da melodia suave do samba, que seu coração se alterava ao cruzar a Ipiranga e a Avenida São João. Se composta hoje e fizesse referência aos mesmos endereços, Sampa teria grandes chances de ser uma canção eletrônica picante, folheada de samples de gemidos femininos histéricos e respirações ofegantes. E seria eleita como hino de certo tipo de estabelecimento que criou raízes na região central de São Paulo: os cinemas pornôs.

Com o fechamento do Cine Marabá em agosto passado por tempo indeterminado para reforma, o chamado Centro Velho da capital passa a não ter mais nenhuma casa destinada àqueles que procuram os novos sucessos de Hollywood na telona. Todas as salas que resistiram às mudanças da cidade com o passar das décadas (parte foi transformada em estacionamentos ou templos evangélicos), se dedicam hoje à exibição de filmes cujos títulos já entregam o conteúdo, como As Colecionadoras de Sêmen, Perversões Imorais ou Quase Virgens.

Quem deseja penetrar no mundo dos cinemas pornôs da região central vai desembolsar uma quantia que varia de 5 a 10 reais – estudantes têm direito à meia-entrada na maior parte das casas. Contudo, o que se passa na escuridão dos ambientes vai além da mera apreciação das performances carnais entre atores e atrizes – e às vezes, objetos diversos ou até mesmo animais – na tela. Se no circuito tradicional de salas a pipoca é permitida, no pornográfico vale desde a masturbação individual até surubas que causariam inveja aos tempos mais liberais da Roma antiga.

O público predominante é de gays e simpatizantes nas casas do centro. Mulheres, quando aceitas nas salas (algumas restringem a entrada do público feminino), são garotas de programa ou esposas/ namoradas/ acompanhantes que se tornam objetos de fetiches. Um deles gera um conceito interno dos cinemas pornôs: os Gaviões, homens escolhidos a dedo por quem trouxe a moça para transarem com ela. A fila para participar da prática pode ultrapassar uma dezena. O prazer do marido é unicamente visual, de puro voyeur.

Há também os casos particulares, como o do senhor que veste-se em trajes femininos a apenas dança de forma libidinosa para seu acompanhante com o intuito de sentir-se uma mulher; ou o do já sexagenário que cobre o rosto com um pano em busca de discrição – e tornou-se uma das figuras mais conhecidas da sala em que é cliente.

Quem conta essas histórias com rigor de detalhes é Paulo Alves, que há cinco anos ronda e distribui camisinhas e informativos por cinemas, saunas e outros focos de público gay como agente do Projeto Cidadania Arco-Íris HSH (Homens que fazem Sexo com Homens), idealizado pela Secretaria Municipal de Saúde com o objetivo de orientar a população homossexual a como se prevenirem contra o HIV e outras Doenças Sexualmente Transmissíveis.

“Os homens que vêm em busca disso são em grande parte trabalhadores e honestos. Há desde aquele que aparece só para descarregar depois do serviço e bater uma punhetinha. Outros, com família constituída, vêm em busca de realizarem suas fantasias, fetiches, taras”, conta Paulo, que antes de ser admitido no projeto, passou por um treinamento de seis meses junto a psicólogos ainda passa por processos de capacitação uma vez por mês.

O perfil da clientela varia de cinema para cinema. O Cine D. José, por exemplo, cobre uma fatia de público que é predominantemente de homens já calvos ou de cabelos brancos, acima dos 50 anos. No Cine Art Palácio, o perfil de idade e classe social não são facilmente identificáveis – em sua área privativa, em frente à entrada, a bicicleta estaciona ao lado de uma Harley Davidson servem como prova. Já no Cine Roma, a garota que passa pela catraca sem pagar e que a cada passo deixa à mostra sua roupa íntima rosa – culpa da saia tamanho infantil – deixa claro que, ali, mulheres são permitidas e desejadas.

Difícil é saber o que se passa nos bastidores de cada uma das casas. Em cinco dos seis estabelecimentos visitados, os funcionários anunciam logo de cara que são proibidos de fornecerem informações. As explicações, quando expostas, são confusas, e, no fim, todos recorrem a uma justificativa padrão: “Ordens do local”. Um mezzo-homem, bilheteiro do Cine Cairo, localizado na sugestiva Rua Formosa, deixa escapar que há garotas de programa dentro da casa. Ao perceber que falou mais do que devia, recusou-se até mesmo revelar o valor do ingresso da sessão.

O único disposto a falar é Humberto Letto, gerente do Cine Saci. Homem de calvície avançada e de aparência serena, ele já está há 19 anos no ramo do entretenimento da por assim dizer sacanagem, e desde 1999 ganha a vida tomando conta da burocracia, finanças e 15 empregados do estabelecimento, que antes já funcionava como uma sala de exibição de filmes lado b de artes marciais, localizado na Av. São João.

Segundo Letto, 97% do público da casa é masculino, entre 18 e 40 anos, e de maioria, homossexual. Alguns são clientes cativos, que desfrutam do local de 3 a 4 vezes por semana. Mulheres evita logo na porta (“É para não causar tumulto lá dentro”). E a medida tem resultados satisfatórios: agressões são praticamente inexistentes, diz. A maior parte dos problemas internos é relacionados a usuários de drogas e pequenos furtos – ambos reduzidos com a adoção de um funcionário há muito esquecido nas modernas salas atuais, o lanterninha.

No escurinho do cinema, acontece o básico no diz respeito a práticas sexuais homossexuais – masturbação e práticas orais são as preferidas. Os ‘finalmentes, na maior parte das vezes, são reservados para os banheiros. Por isso, a higienização é constante, chegando a quatro vezes por dia nas cabines. Mas mesmo assim, o odor característico é forte, perceptível a metros de distância, misturando-se com o cheiro de aromatizante barato do salão, que passa por uma limpeza geral quando as luzes são acessas e o filme em exibição pára pela única vez no dia.

As informações fornecidas por Letto são diversas, que vão desde números até causos que se passam entre as quatro paredes de dimensões generosas do Cine Saci. Mas ainda assim, são poucas para compreender o que são os cinemas pornôs da região central de São Paulo - um mundo que pode por sua riqueza render análises profundas em estudos psico e sociológicos, mas fechado para o mundo exterior por seus próprios líderes, os incomunicáveis donos das casas. Sampa poderia também alterar visões embaçadas. Mas, por ora, ao cruzar a Ipiranga e Av. São João, outro membro masculino é que irá se exaltar.

Gustavo Silva é um vagabundo (ponto).

17 de jan. de 2008

Hay, Caramba!

Vejo que nos dias que se passaram, membros do adorado-salve-salve Androceu dedicaram uma fracao de suas vidas para contarem suas experiencias de viajem neste adorado sitio. Enquanto isso, eu me encontro a um mes e meio em uma cidade relativamente agitada, e, ate agora, ninguem sabe o que se passa na Terra da Rainha - de acordo com o meu ponto de vista.


Antes de tudo, um aviso: essa situacao nao ira mudar - pelo menos nao agora.


Mas algo eu tenho que compartilhar, e o momento eh agora: voces sabiam que o Arnold Schwarzenegger fala Sayonara, Baby ao inves de Haste la Vista, Baby, na versao espanhola (ou pelo menos aquela exibida na Espanha) do Exterminador do Futuro II?


Ai, mi puta madre... Que se passa?


Pois eh, eu tambem estou chocado.

Gustavo Silva vive um momento turistico e, no momento, se prepara para sua viagem a Amsterdam neste final de semana. Finalmente, o mundo ira descobrir o verdadeiro valor de um estudante de jornalismo da PUC.

4 de nov. de 2007

2007 - Uma Epopéia Muito Louca (?)



-Ah, é... E aquela viagem lá, ein?

Assunto sem graça, criado em cima da hora só pra disfarçar. Foi a estratégia da garota, quem nem era lá essas coisas, para entrar no começo de uma fila cujo final desestimulava qualquer procura. Mas não tava nem aí. O Timão já tinha ganhado o seu jogo, as estrelas estavam lá no céu como se fossem um veto divino à chuva, e o Hot Chip já estava no palco. “Bem vinda ao TIM Festival”. Devia ter falado isso, com um enorme sorriso sarcástico, só pra cutucar e me sentir ainda mais feliz.

Foram uns 20, 30 minutos na espera pra entrar na tal Arena Skol. A experiência era nova – não a de ir ao Estacionamento do Anhembi pra ver um show e muito menos o de esperar em fila, mas sim a de encarar as pessoas que estavam lá. Por maior que seja meu ecletismo musical, eventos desse naipe para mim quase sempre foram locais de um monte de gente cabeluda, vestida de preto e com cara de mal – ou de nerd frustrado -, geralmente feia pra diabo - o que nem chega a se configurar como ofensa, já que o coisa-ruim é ídolo de uma parcela não desprezível. Pois é, shows de rock são isso ai.

Mas ali, ah... O Fred e o Brição passaram o tempo montando seleções e seleções das melhores do mundo. Garotas insanamente belas, cheirosas, todas merecedoras da camisa 10 passavam a todo o momento buscando o fim da fila, mas fominhas à beça, nenhuma dava bola. Não que eu me preocupasse. Rapaz de família e comprometido que sou, fiquei pasmando e curtindo meu tédio – sim, o show do Hot Chip tava rolando e eu tava ouvindo tudo do lado de fora, mas isso não dizia nada. Acho que, na verdade, só o Iggor Cavalera (esse mesmo que você está pensando) fazia questão de assistir às duas bandas (O Spank Rock tinha finalizado seu show há pouco tempo). Azar o dele.

Tá, sem radicalismos. Não vou criticar as preferências do ex-baterista e atual DJ do tal Mix Hell, e também condenar o show do Hot Chip, que não foi de todo o mal. Lá dentro os graves dançantes do grupo britânico estavam funcionando bem até, melhor do que eu esperava. Mas o que realmente valeu foi ver um monte de gente sem o menor pudor (e capacidade) arriscar umas dancinhas aqui e ali. Os movimentos iam desde simples passinhos desinibidos com as mãozinhas para cima até simulações de uma lacraia (não a/o dançarino/a) pós-inseticida. Curioso.

Curioso também foi o fato do Hot Chip ter parado sua apresentação no meio. Ninguém entendeu lhufas na hora – e agora também. Uma ‘pane no sistema de som do palco’ foi o primeiro fato ‘apurado’ (aspas exponenciais, por favor) para justificar os 20 minutos de silêncio, que depois acabou virando, sem muita convicção, ‘uma pausa para separar as duas partes do espetáculo’. Prefiro acreditar na primeira versão, só pra não desejar que um novo recorde de surra-de-pau-mole seja estabelecido e os ingleses comecem a se vangloriar disso.

Gustavo Silva esta oficialmente, a partir de agora, cadastrado nas Olimpíadas Androcêuticas. Por conta disso, ira dividir sua saga no TIM Festival em vários pedaços, buscando a tão desejada medalha de ouro no final do mês.


19 de set. de 2007

Musa de Todo o Sempre: Julliete Lewis


Gustavo Silva irá ao Tim Festival para assistir Julliette & The Licks e, provavelmente, ficará retardado da cabeça ao ver a atriz/ cantora fazendo poses e caras de ninfeta-selvagem-vem-ni-mim ao som de rock 'n roll simples e sem frescuras