7 de jun de 2010

Spottaccio, Sicília, 1949-1979 – S01E01



Jamais qualquer morador daquela bela vila siciliana havia antes ousado alguma conspiração, algum golpe ou qualquer tipo de atentado contra aquela importante e tradicional Famiglia. Mesmo adorados por uns e respeitados pelo resto, sabiam todos que a Máfia havia alcançado aquela pacata província e não seria uma tradição centenária que livraria os poderosos Spottaccios de ruir diante duma guerra que logo teria início.

Durante a Segunda Guerra Mundial, não foram poucos os moradores da vila que se viram ameaçados pelas tropas dos Aliados, entretanto se aproximava a guerra de um desfecho, após anos de confrontos absolutamente aterrorizantes. Nesse tempo, a segunda geração dos Spottaccios reergueria o nome da família ao mais importante patamar, algo que não ocorria desde o surgimento dos primeiros grupos que dariam início ao Fascismo. Era um tempo no qual muitos moradores migrariam para as grandes cidades da Lombardia, da Toscana e da Campânia, não fosse a intervenção dura dos Spottaccios.

Graças à defesa heróica e à reconstrução da vila, essa Famiglia tornaria-se uma das mais admiradas, respeitadas e temidas de toda a região. Seguramente esse poder desmedido acabaria por gerar nas poderosas famílias sicilianas um temor além do esperado inicialmente pelos próprios moradores da vila.

Foi nesse tempo que Faro Salvador adotou o nome daquele bucólico vilarejo em seu sobrenome e se tornaria, erguido pelos braços do povo, o primeiro padrinho daquele local. Don Faro Spottaccio. No respeito e principalmente nas festas durante o pós-guerra, regadas a muito vinho, Don Faro criaria seus quatro filhos, todos homens, ao lado de sua esposa, Mamma Rachel Bracciola, dama de fundamental importância na militância do povo contra a invasão dos vikings bárbaros que tocavam o puteiro nessa tal de Segunda Guerra Mundial (será que estou falando besteira? Bom, foda-se).

Apesar de todas as dificuldades e do constante crescimento da criminalidade da região, atingindo Palermo, Caltanissetta, Catania e Messina, grandes cidades sicilianas, a vila de Spottaccio era ainda muito frágil e pequena, pouco visada, era quase inexistente, ao contrário de seu padrinho. Era um local de políticas ligadas historicamente ao Socialismo e havia ficado isolada dos ideais fascistas. Viviam todos em harmonia e igualdade. Exceto os Spottaccios, é claro, que viviam em festas e moravam em uma grande mansão no topo da vila, rodeados por jardins vastos, grandes florestas e muitas festas com homéricas macarronadas, vinhos e belíssimas tarantellas. Bons tempos.

Passaram-se os anos e o respeito começou a diminuir. Era evidente que aquele antigo temor dava lugar ao deboche, pois ao invés de dominar mais e mais territórios, os Spottaccios apenas se contentavam com as festas, que começavam, aos poucos, a serem mais ranhentas e macarrônicas. Em sua terceira geração, aquela família via na figura de Walter Spottaccio a esperança de recuperar seus velhos tempos de profundo temor que ergueram a Famiglia. Era ele jovem e tinha todos os atributos para ser o sucessor de Don Giorgio Claudio, mas tudo seria diferente. Nani Bracciola era a principal candidata a ser a nova Mamma daquela família, pois namorava Walter havia muito tempo e tinha força para poder segurar as pontas, mesmo em tempos de guerra, como se prenunciava. Porém, Don Giorgio Claudio, ao lado de sua esposa Mamma Sandra Rosa, temiam o derramento de sangue no processo de transição de gerações. Com o passar dos anos, Don GC foi ficando lelé da cuca e Walter premeditava um golpe.

- Voi mai ha sognato nella vostra vita con una famiglia molto felice e grandiscono, mia cara Magdalena? (Voce algum dia sonhou em sua vida com uma família maravilhosa e grande como essa, minha querida Madalena?)
- Naturalmente, ma il mio soltanto timore e perdere tutto che abbiamo ottenuto oggi, e pericoloso da vivere per qui. (Claro que sim, mas o meu unico medo e o de perder tudo o que conseguimos ate hoje, e perigoso viver aqui.)
- Pericoloso perche? Siamo pacifici, nondimeno sono un Don, ognuno sa che non sono non coinvolgere con i giochi o i narcotici. (Perigoso por que? Somos pacificos, embora eu seja um Don, todos sabem que não estou envolvido em nada de jogos ou do tráfico de drogas.)

Sem dúvidas Mamma Sandra Rosa era uma senhora muito sábia e astuta, talvez uma das mais sensatas de toda aquela geração. Sabia ela que era impossivel existir um Don temido e poderoso sem ter, no mínimo, envolvimento com os políticos e com os jogos. Sua profecia não era tão absurda, como pensava o então Don Giorgio Claudio. De seus filhos, todos realmente pareciam seguir os passos do pai, mas apenas Walter carregava heranças de seu avô Faro. Walter era filho único, mas, apesar de nascido homem, não era lá muito macho, sabe, algo que deixou Mamma Sandra Rosa em depressão e a levaria a enlouquecer por alguns meses, se tornando uma das maiores acadêmicas do país e especialista em semiótica. Giorgio Claudio resolveu virar padre e deixou a Famiglia na mão. Aquilo desestruturou por completo os Spottaccios e Nani abandonou Walter, pois ele não era muito de dar no couro. Por sorte, Walter teve sim um filho, sabe-se lá como, porém logo após morreu no episódio A Ameaça Fantasma do Star Wars, quando já havia se tornado Darth Walter. Enfim, essa história fica pra próxima.

6 comentários:

Max disse...

Genial, genial, genial.
Depois eu volto e faco um comentario melhor, mas por hora so consigo dizer que esta genial...

Alan disse...

Don Giorgio Claudio e Mamma Sandra Rosa, mas que cazzo de casal...

João Paulo Caldeira disse...

Ao contrário da novela, n'Os Spotaccios os italianos falam... italiano.

Max disse...

Agora sim...
Como eu disse no primeiro comentario: genial, tem tudo para ser um grande marco na historia do Androceu.
Porem tenho uma pequena critica/sugestao a fazer: depois do final da primeira trilogia (os tres primeiros capitulos), que tal fazer uma pequena arvore mostrando certinho quem e filho de quem e casado de quem, pois eu fiquei boiando com algumas coisas. O Don Giorgio Claudio e o que exatamente do Walter Spottaccio? Na primeira leitura me pareceu que ele era irmao, mas agora me parece que ele e o pai... enfim acho que fica legal para nao ficar tao perdido.

mario disse...

Mais uma saga de grande sucesso desponta no Androceu!

carlitos disse...

sim, caro, max, vejo como plausível e deveras pertinente sua questão. eh que ando sendo muito plagiado por outros escritores menores nesses últimos tempos, sabe. tem um tal de... como é o nome dele mesmo? Gael García Marquez, Gabriel García Bernal, sei lá, enfim, que escreveu um livreto aí Cem Anos de Solidão. Então, ele quis ser tão complexo quanto eu entre seus 19264 Arcadios Buendias. caro amigo, guimarães, quando eu tiver algum tempinho faço uma 'árvere-ginecológica' dessa história.