21 de jun de 2010

Ele foi O cara: Noel Rosa

confira a versão paralela do texto em www.boemios.com


Noel de Medeiros Rosa

Vocês já imaginaram como seria morrer aos 26 anos? Uma coisa bem chata, eu acho que vocês devem estar pensando. Imagine então voltar ao passado e, como se não bastasse, cair na pele de Noel Rosa. Certamente você morreria também aos 26 anos, mas precisaria algo a mais que isso? Se hoje o Carnaval é conhecido como o maior show da Terra, deve muito a esse rapaz. Noel ficou mais famoso por ter sido o responsável da “aceitação” do samba entre os mais riquinhos e “medianos”, mas para quem escuta uma meia dúzia de três ou quatro, acho que um ou dois sambas e chôros de Noel já consegue se esquecer de clichês e esteriótipos em apelidos, alcunhas ou qualquer coisa do tipo.

Agora, como eu sou um cara de fases, sempre acabo conhecendo algum músico mais profundamente depois de longas semanas ouvindo o mesmo. Para reencontrar o samba fenomenal de Noel de Medeiros Rosa, tive que superar uma longa fase ouvindo Nelson Gonçalves. Apesar de Nelson não ser um jogador da posição chamada Samba no elenco infindável de craques da MPB, confesso que poucas versões de uma das mais belas e melancólicas canções de Noel são tão plenas quanto à que saiu da boca de Nelson. Último Desejo talvez tenha ficado mais famosa por sua história que por sua harmonia ou melodia, mas nesses últimos tempos nos quais só se ouve emocore e sertanejo, vale lembrar algumas dessas histórias que, às vezes parece, podem morrer por falta de interesse dos amantes da música (sem generalizações, ok?).

Acho incrível quando ouço pessoas cantarolando esses emocores e sertanejos como se fossem o “crème de la Crème” do amor, da paixão, isto é, da cornisse, em português claro. Por exemplo, quem nunca ouviu por aí: “Coisas exotéricas me passam na cabeça, vou logo dizendo antes que eu me esqueça, coisas bem malucas como te amar, te amar, te amar (x539)”. Porra, isso deve mesmo ser aquilo que chamo de “Complexo Buarquiano1”. Meu, é o suprasumo do que hoje existe em falar de amor. Pois então, esqueçam essa besteira. Falarei do que realmente interessa agora, Último Desejo, e começarei pela lenda (que, excepcionalmente neste caso, deve realmente ter acontecido).

Reza a lenda que foi com essa canção que Noel abandonou sua amada Ceci, uma moçoila que ganhava a vida honestamente (sem ironias) em um cabaré do Rio. Disse a tal Ceci que recebeu aquele samba, na verdade aquela carta, junto da notícia de que Noel havia falecido. Dizem João Máximo (jornalista) e Carlos Didier (músico), que um companheiro de Noel, chamado Vadico, foi o encarregado de entregar aquela obra-prima à Ceci. “Acho que ele te castiga um pouco neste samba, Ceci”, alertou Vadico. Não, eu não acho que isso foi um castigo, acho que foi um esculacho, uma sarrafada.


Eis a malfadada Ceci

Nosso amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa festa de São João, morre hoje sem foguete, sem retrato, sem bilhete, sem luar e sem violão. Perto de você me calo, tudo penso, nada falo, tenho medo de chorar. Nunca mais quero seu beijo, mas meu último desejo você não pode negar. Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga se você me quer ou não, diga que você me adora, que você lamenta e chora a nossa separação. E às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não presto, que o meu lar é um botequim, que eu arruinei sua vida, que eu não mereço a comida que você pagou pra mim.

Vai falar o que para uma cidadã dessa? Levar uma bordoada dessa não é para qualquer uma não. Mesmo assim, um esculacho à la Noel, dono da boemia, dono da melancolia mais pura de um trovador. Podem dizer o que quiserem, mas para mim Noel não foi apenas um sambista, como tentam chamá-lo inutilmente. Foi um poeta, tão qualificado como gênios como Vinícius e Drummond. Larguem a mão de ouvir só Lady Gaga e chamá-la de lenda. Dá vontade de chorar em ouvir uma canção como essa do Noel.

1 Com.ple.xo Bu.ar.qui.a.no
I (de Chico Buarque) Delírio coletivo, de predominância feminina, em dar apenas ao músico Chico Buarque o dom de compreender a alma feminina. Na verdade eles(as) não sabem que Chico Buarque apenas aprendeu tudo o que sabe com semi-deuses como Noel Rosa, Vinícius de Moraes e Pixinguinha. Só pra amenizar, ele não copia, apenas faz mimeses.
II (tá bom, mulheirada desvairada, é brincadeira, ele é “fodão”) Hmpf, mentira.

Um comentário:

ilana disse...

Sem nada mais a dizer...
Vc é foda!
Noel o grande poeta da Vila e .