4 de mai de 2010

Ele foi O cara: Nelson Gonçalves



Nossa geração pouco conhece e pouco procura conhecer essa voz, que é uma das mais importantes da história da Rádio brasileira. Segundo algumas pesquisas, é o segundo maior vendedor de discos do Brasil, atrás apenas de Roberto Carlos. Nelson Gonçalves não é apenas A Volta da Boemia, como todos os que o conhecem minimamente apontam. Não era compositor, era um intérprete de grandes nomes da composição brasileira nesse tempo como Herivelto Martins (também cantor do Trio de Ouro), Adelino Moreira, Maximiano de Souza, Joaquim Pimentel, Cartola, Benedito Lacerda e tantos outros. Nelson Gonçalves foi de tudo. Seu apelido de “Metralha”, pela gagueira que quase fechou todas as suas portas para se tornar cantor, poderia ser dado pela metralhadora que foi sua fala. Mas apesar de tudo isso, que fantástico boêmio, um dos últimos.

Antes de sair da Cultura, no final do ano passado, ganhei um DVD que andava esquecido nos arquivos da Assessoria. Estavam lá limpando o estoque e então Alexani, minha antiga e querida sub-chefe (assim como todos os que lá ainda estão e já estiveram), tirou de lá um DVD do Ensaio com Nelson Rodrigues. Perguntou “alguém vai querer esse?”. Saltei da cadeira para garanti-lo, mas nem seria preciso, ninguém se interessou. Quando mos-trei tamanho interesse, pensaram que era para meu pai, algum tio ou avô. Era para mim mesmo. Que programa é o Ensaio, que artista era Nelson Rodrigues, que oportunidade ú-nica era aquela. Depois de muito tempo guardado, hoje resolvi assisti-lo e saio, mesmo que seja em vão, com esse texto para compartilhar um pouco da história desse fantástico cantor dos Tempos de Ouro. Reproduzo abaixo declarações que ele concedeu a um dos grandes e mais ocultos entrevistadores da TV brasileira, Fernando Faro.

“Nasci em Livramento, Rio Grande do Sul, vim pra São Paulo pequeninho, vim pro Brás, rua Bento Barroso, me criei ali. Meus pais eram dois pais formidáveis, minha mãe, meu pai. Não batiam não, só me faziam trabalhar, o que era muito pior. O meu pai se fingia de cego. Você não quer a verdade? (retruca a Faro) Ele se fingia de cego com óculos esculos, tocava violão muito bem e arranjou um outro ceguinho de verdade que tocava bandolim. Eles iam para as feiras de São Paulo e no fim conseguiam, naquele negócio “não quer ajudar o ceguinho?” tal e coisa, então ele arrumava uma grana, naquele tempo. Eu tô falando de 24, 25, 26, 27, ele arrumava, de sete da manhã até uma da tarde arrumava 120 miréis, que na época era um dinheirão. Só que na hora de contar pro ceguinho era fogo na roupa. Ele dizia, “pra você - ele chamava-se Toninho – pra você, Toninho, tá aqui, mil réis.” Que na verdade era 500. No fim, o ceguinho ficava com 20 pau e ele ficava com 80. Sempre malandreco, sabe como é, muito seresteiro, fez muita serenata.”

“O Brás era formidável, que não tinha nem luz, era lampião. E meu pai era o rei de apagar lampião. Ele tinha um amigo chamado Repa que ia com uma escada ia no lampião e fazia assim (assopra) e apagava o lampião. Aí batia na porta da mulher e dizia, dona fulana, o seu gás apagou aqui em frente e tá dando uns assaltos por aqui. A mulher dizia “Ai meu, Deus, como é que eu faço?” “Eu conheço aqui um senhor que trabalha com gás, o seo Manoel.” “Chama ele por favor” e tal. Aí vinha meu pai com a escada “apagou o gás?” Ele subia lá em cima com o isqueiro na mão e (simula o som do isqueiro) ascendia a luz, ele ia limpava, mexia com o alicate, aí ele descia e a mulher dizia “Ai, graças a Deus, quanto é?” Dois mirréis. Era cachaça a noite inteira”.

“Eu fui, parece mentira, eu fui pra escola primeiro, da escola eu fui expulso do Liceu Eduardo Prado porque tudo era Dia da Bandeira, Dia da Independência, e quem puxava o hino nacional era eu. Então era assim, “Nelsinho!” Aí eu já puxava, “Ouviram do Ipiranga”, aquele negócio. E no recreio os moleques me gozavam, então era aquele brigaiada danada. Aí um dia ele me chamou, disse “Vem cá!” e eu disse “Não vou não, não canto mais nada não.” Fui expulso do colégio, cheguei em casa e meu pai assim, ele era português: “Ai, já estás aqui?” Já. “Mas o 'quecouve'?” “Quecouve o seguinte, fui expulso do colégio” “'Maspulso' poque?” “Porque eu não quis cantar nosso hino nacional, nosso hino da bandeira, tem briga no colégio, no recreio” “Non quiseste cantar o hino da tua pátria?” “Eu não, é que todo dia é só eu” “Mas isto é uma vergonha, não cantaste o hino de tua pátria! Bom, então amanhã em diante vais cantar comigo na rua”. Pronto. Dia seguinte, ele pega uma caixa de Brahma e disse: “Sobe aqui. Sabes Malandrinha?” Digo “Sei”. “Então canta.” Eram nove cordas, três bordões em cima. Aí tocavam e eu cantava. E eu muito pequeninho, juntava assim de gente. E tinha uns livrinhos de verso, que eles mesmo faziam os versos, versos quadrados, e eu vendia a 500 réis. “Faz o seguinte, tu vende este livrinho e quem não quiser comprar, dá uma esmolinha pro ceguinho”. Na conferência, depois do almoço - meu almoço que era uma isca de bacalhau com pão seco. Grande infância, né, rapaz, bacalhau. Bacalhau é nutritivo, né, filho? Naquele tempo era barato. Só o cheiro matava dois - então, na hora que chegava em casa eles faziam a conta pro ceguinho. Era o ceguinho, meu pai e eu. Então meu pai dizia assim: “Tu, Toninho, que é o mais velho, toma aqui mil réis, que era só 500, pra mim também, mil réis. Pro meu filho que é menor, só leva 200 réis, que era 500. No fim, o ceguinho ficava com 25 mil réis, meu pai ficava com 80 e eu ficava com 5 pra comprar bala.”

Ele foi O cara é a nova coluna de livre espaço para discussão sobre alguém que... tenha sido O cara, é claro.

Um comentário:

João Paulo Caldeira disse...

Nelson Rodrigues, mais conhecido como Nelson Gonçalves, nasceu no Rio Grande do Sul mas era fluminense. Pode, Arnaldo?