3 de dez de 2009

O Triste Fim de Corlas Mossiraca

(Segundo o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros)

Corlas Missoraca era um jornalista exemplar. Um cidadão que estava acima de qualquer suspeita. Recém formadoem uma profissão da qual tinha muito orgulho, ele iniciou uma busca pelo mercado de trabalho, mas ainda sem saber ao certo seu destino. Carregava debaixo do braço um documento que tratava como uma verdadeira Bíblia profissional, o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros (ou o popular Código dos Subversivos).

Pereirinha, um gestor de um grande jornal da metrópole de Soa Poula não sabia disso e deu a es-se rapaz com aparência inocente uma oportunidade nos obituários. “Esse pivete se enquadra perfeitamente em nossa linha editorial! Logo, logo vai escrever só o que queremos! Ah, já estava me esquecendo que hoje é o dia de soltar aquele release da empresa do Nogueira na capa!”, dizia contente o chefe de redação, em uma tarde como todas as outras de sua vida.

Quando soube da editoria que trabalharia, Corlas ficou muito triste. Não queria escrever sobre os mortos e para resolver seu problema, tratou de chamar seu chefe logo no segundo dia de batente para uma reunião. Na redação, todos riam muito de Corlas, mas relutante, ele insistiu em seu desejo de conversar com o temido Pereirinha.

- Chefe, é o seguinte, quero fazer algo no jornal que permita o acesso por parte da população de informações de relevante interesse! Prometo que farei isso sempre escrevendo as matérias de maneira precisa e correta, sempre checando a veracidade dos fatos.

- Está ficando maluco, moleque? Está querendo me impôr o que vai fazer por aqui?

- Não, senhor, quero apenas ter a liberdade de imprensa, a qual tenho direito, para que concretize meu compromisso com a responsabilidade social, inerente à minha promissão!

Confuso, Pereirinha começou a sorrir e disse:

- Está bem, está bem. Vejo que é um funcionário exemplar, caro Carlos... - dizia ele até que foi interrompido pelo audacioso menino.

- Corlas, senhor. Corlas.

- Sim, Carlos, Corlas, foda-se. Enfim, vou transferi-lo para a editoria de Celebridades, certo? Agora suma daqui antes que eu me canse de você.

No dia seguinte, Corlas estava mais feliz, mas logo se deparou com mais um problema quando escrevia sobre um romance entre Reinaldo Gianequiini (foda-se o nome desse maluco) e Rixarlison (outro foda-se). Todos diziam que ele tinha dado um grande furo e Pereirinha, que tudo ouvia, disse muito contente:

- Tomei, como sempre, a decisão correta ao transferi-lo. Esse menino é um talento! Mas para essa matéria ficar perfeita, vamos escandalizar! Diga-me quem foi sua fonte, Carlos.

- Corlas, porra! (Não, ele não disse isso – volta a fita). Corlas, senhor. Corlas. Mas não posso dizer, é direito do jornalista resguardar o sigilo da fonte.

- Diga logo, porra!

- Não posso senhor. E lembre-se que é meu dever me opor ao arbítrio, ao autoritarismo e a opressão, bem como defender princípios expressos na Declaração... - falava ele, cortado sumariamente pelo Pereirinha, que já estava ficando ainda mais puto da sua cara.

- Olha, pivete, eu só não te demito agora porque vai me custar mais que deixá-lo cobrindo o que há de menos importante em um jornal: o futebol. Vá com os boêmios vagabundos, vá.

Lá se foi mais uma vez o menino Corlas. Pensou que teria paz enfim, dado em vista que o futebol era a coisa mais importante dentre as menos importantes apenas. Foi então que um telefone veio infelizmente a tocar e ele puxou a ligação. Era Marreco, presidente da TODOPEPE, a temida Torcida Organizada Dois Pé do Peito.

- Aè, maluco, firrrmeza? Tô ligano pa avisá que nóis da TODOPEPE vai apavorá no Poco contra os carrrnero, Vai tê porradaria federal, mano. Pesca aí a data!

Novamente infelizmente o telefone dele estava no viva-voz e todos na redação ouviram aquilo Ficaram chocados e disseram:

- Porra, meu, onde você senta vem pauta quente!

Mas Corlas respondeu:

- Não posso usar o Jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime! Além do que também estaria expondo pessoas ameaçadas, exploradas e sob risco de vida!

- Tá louco? Usa essa pauta pra subir na vida, rapaz!

Apesar do incentivo, Corlas disse:

- Valer-se da condição de jornalista para obter vantagem pessoal é contra minha conduta! A opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com responsabilidade!

Pereirinha, que tudo ouvia, ficou vermelho de raiva e estava prestes a gritar algo do tipo:

- Suma daqui, seu leproso desgraçado! Vá tomar no meio do seu cu lá na casa do caralho!

Porém foi interrompido por um alto falante que soava por toda a redação. Era a turma do Sindicato mostrando que o jornal estava em greve. Só não entraram com a kombi porque ela só pegava em terceira marcha e seria difícil demais subir as escadarias do prédio com ela.

- Companheiros e companheiras do jornal Falho do Estoda de Soa Poula! Estamos em greve pelos direitos dos jornalistas oprimidos e escravizados (...) e lutaremos pelos nossos direitos!

Corlas ficou radiante, era sua primeira greve logo no segundo dia de trabalho e logo estava ao lado de novos companheiros, afinal:

- É meu dever respeitar as entidades representativas e democráticas da categoria!

Pereirinha, agora mais que puto da vida, gritou para que todos pudessem ouvir (e sem alto falante nenhum):

- Você é um lixo! Onde estava com a cabeça quando te contratei?

Corlas ainda sem notar a gravidade da situação, permitiu o direito pleno a liberdade de expressão de seu chefe (ouviu com o cu na mão todas as merdas que o velho tinha para dizer) e guardou o seu maior golpe para o final:

- Tenho o direito de denunciar as práticas de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza. Vou encaixá-lo na de qualquer outra natureza hein, chefe!

Corlas vestiria sua camisa do MST-PSTU-MYKWST, mas não antes de ser chutado da redação.

Enfim, Corlas Missoraca era um jornalista exemplar, seguia a risca todos os artigos do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Isso até ele ter que aceitar trabalho remunerado em desacordo com piso e carga horária fixados pela entidade da classe. Seu motivo foi a necessidade de subsistência por razão famélica. Mas depois ele se daria bem. Atualmente dá aulas na Pantofácia Unavirsededa Cotílaca de Soa Poula, ao lado de sua companheira Rechal Belsolabra.

7 comentários:

Alan disse...

Isso comprova que o bom jornalismo sempre sai vencedor.

mario disse...

HAHAHA!!! Fodástico, Carlitos! Simplesmente genial!

Max disse...

Eu juro que gostaria o contrário: um jornalista "Benevides Paixão", ou seja, sem nenhuma ética, numa redação cheia de Corlas Mossiraca.

Alan disse...

Aguardamos o próximo capítulo da saga de Corlas Mossiraca.

João Paulo Caldeira disse...

hahahha, Rechal Belsolabra!

Julia disse...

Você é meu pequeno gênio da lâmpada, Carlos, desculpa Corlas

carlitos disse...

não estava nos planos fazer uma continuação, alan, mas pensarei no assunto. quem sabe uma versão como o Max opinou...