1 de dez de 2009

espaço musical brasileiro: Hermeto

Para mim Hermeto Paschoal é o segundo maior músico brasileiro de todos os tempos. Perde para um mestre sem igual, unânime: Heitor Villa-Lobos. Claro, tudo em minha modesta opinião. Quem acha que é Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque ou quem quer que seja, também estaria com toda a razão. Mas para mim Hermeto é alguém em meu imaginário como um senhor capaz de não apenas fazer som com tudo e sim música com tudo.

Imagine um cigarro e um tubo da pasta de dentes. Pode crer que se você lançar o desafio para esse fantástico músico, você deve sair perdendo. Tudo bem, tudo bem, acho que chutei o balde, eu penso em um primeiro momento. Mas no fundo é bem capaz que ele se saia muito bem dessa cilada. Para muitos um loucão, um desconhecido. Quantas vezes não ouvi de alguns amigos musicais que aqui no Brasil Hermeto pode não ser um herói digno de honras e mais honras, mas no exterior, ele é mais que adorado por sua musicalidade intrínseca.

Nascido em Lagoa da Canoa, o alagoano é para mim o maior instrumentista depois de Villa-Lobos não somente por quesitos óbvios como genialidade, virtuosidade, composições espetaculares e entre outros: ele é um multinstrumentista de primeiríssima qualidade. Acordeão, flauta, piano, saxofone, trompete, bombardino, escaleta, violão, viola, garrafa de vidro, isqueiro, máquina de lavar roupas, além de mil instrumentos mais. Sua história simplesmente fascina. Ficaria horas falando sobre suas primeiras inspirações com todo tipo de objeto que virava música em suas mãos, mas prefiro dar as dicas musicais de uma vez. Se carrego um projeto ambicioso para o ano que vem, certamente é o de escutar sua vasta obra em estúdio.

Cronologicamente, já ouvi todo o cd Quarteto Novo, grupo que reuniu além de Hermeto, Theo de Barros, Heraldo Monte e Airto Moreira. Só gente de primeiro escalão. Diz a lenda que foi um grupo formado para acompanhar Geraldo Vandré e isso tem grandes chances de ser mesmo verdade, mas quero ainda assistir ao Mosaicos da TV Cultura para comprovar essa suspeita. Em 1967 gravariam eles um álbum instrumental que levava o mesmo nome do grupo. Perfeito e ponto final. Já em 1973 viria A Música Livre de Hermeto Paschoal. Na ponta dela um de seus maiores clássicos, Bebê, mas todo o álbum seria inesquecível, com interpretações inigualáveis de Carinhoso e Asa Branca. Isso só nas interpretações.

Ao Vivo em Montreux Jazz Festival, gravado em 1979, foi também outro marco absoluto de plena musicalidade. Não há música ruim, pode acreditar. Claro, todos os ouvidos que quiserem ouvir esse velhinho pegador de ar devem ser treinados por um pessoal mais leve, tipo Jorge Ben e Gilberto Gil em Ogum Xangô. Já no ano seguinte, em 1980, um álbum de estúdio que evidenciou o auge de uma carreira brilhante, que dura até hoje em shows internacionais com grande frequência. Aquele álbum de nome Cérebro Magnético já me impressionava por sua capa estupenda, mas ouví-lo foi uma das grandes experiências musicais que pude contemplar nos últimos tempos.

Quebra de ritmo, atonalidade e um jeito virtuose de tocar não bastam para definir Hermeto. Ele fez da música instrumental popular brasileira um objeto de adoração para o mundo inteiro. Se o maestro Heitor Villa-Lobos é o pai de nosso erudito, posso dizer sem medo de errar que Paschoal é o nosso pai do instrumental popular. Tanto um quanto o outro jamais precisaram abrir a boca para fazer com que o mundo inteiro ficasse de boca aberta.

Nenhum comentário: