9 de nov de 2009

espaço musical brasileiro: Nara

Certa vez comecei a devanear sobre grandes nomes da Bossa Nova. Para quem aprecia de verdade esse estilo musical absolutamente fascinante, alguns nomes surgem facilmente em mente, como os difundidos por aí como João Gilberto, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Baden Powell, Luiz Bonfá, Carlos Lyra, Marcos Valle, Roberto Menescal, João Donato e tantos outros. Natural, foram realmente grandes nomes e talvez os mais destacados de uma música de extrema qualidade.

Mas tenho claro em minha mente que um nome não está na lista dos mais discutidos quando se fala hoje de Bossa Nova. Nara Leão não passa de uma figurante nas análises mais rasas. Conhecida apenas como a mulher que oferecia o apartamento para os encontros dos boêmios, as pessoas que se arriscam a falar da música carioca dos anos dourados costumam focar todos seus esforços nesses ícones, que certamente merecem reconhecimento, mas não todo ele.

Baixei um disco chamado Um cantinho, um violão, do ano de 1985, dividido entre Nara Leão e Roberto Menescal. Posso não ter escutado a Bossa Nova por completo e assumo isso com muito naturalidade, afinal esse riquíssimo gênero não se resume às músicas das aberturas de novelas do Manoel Carlos, mas de tudo aquilo que havia ouvido, nada me tocou mais que a voz da conhecida Musa da Bossa Nova. Aquilo que Elis foi para a MPB (atentem que na minha opinião Elis foi a mais sensacional cantora brasileira), Nara foi para a Bossa Nova.

Do mesmo jeito que Elis foi capaz de encontrar o ponto mais próximo da essência de todos os sentimentos existentes em Atrás da porta, Nara Leão traduziu o que significava de fato a Bossa Nova em sua suavidade surpreendente. Não entendo que a mitificação de músicos como João Gilberto e Tom Jobim na Bossa e Chico Buarque na MPB sejam questões de machismo. Acredito que as pessoas apenas conhecem muito pouco a voz dessa moça que, ao meu ver, fez as músicas mais singelas e fidedignas à proposta de um estilo profundamente ligado a um Rio de Janeiro maravilhoso, perfeito.

Na voz de Tim Maia no programa Ensaio da TV Cultura, conheci uma de suas músicas mais maravilhosas e que chega a ser infantil, assim como seu espírito e sentimento, chamada A Rã. Sempre recordo que uma música de Nara Leão fez de Tim Maia um cantor completamente diferente de tudo aquilo que já estamos acostumados a assistir e ouvir. Um Tim Maia que no fim de sua vida viveu aquilo que chamo de sua terceira fase, a Bossa Nova. Para quem o conhece bem, sua primeira fase foi extremamente ligada à música preta brasileira e a segunda ficou muito conhecida entre os fãs como a fase brega. Por incrível que pareça sua fase mais difundida é a brega.

Outro ponto extremamente positivo para Nara foi um álbum que tive o grande prazer em baixar. Sapo vira rei vira sapo. Na minha opinião um trabalho absolutamente estupendo e voltado para crianças. Se trata de uma história sonorizada, vendida em LP antigamente (não sei como isso foi parar na internet e melhor, consegui ainda todas as imagens da história). Esse é o nome do livro escrito pela fabulosa Ruth Rocha, com ilustrações de Walter Ono, vendido junto do discão. As músicas são Chico Buarque com Nara Leão. Um verdadeiro achado, pura sorte mesmo.

Apenas uma vez que seja, aconselho a todos vocês, caros amigos: ouçam essa voz abençoada. Nara não necessita de imagens para ser fascinante: basta ouví-la. Está entre os dez maiores cantores brasileiros certamente, ao lado claro de Chico, Simonal, Tim e tantos outros cantores fundamentais. Então fecho esse texto com duas dicas musicais: Um cantinho, um violão, de 1985 e Sapo vira rei vira sapo, de 1982. Para quem puder conhecer a fase Bossa Nova de Nara também é demais.

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