4 de set de 2009

Era

Bicudo era. Se você perguntasse a qualquer outro sobre ele, Bicudo somente era. Ou ao menos tinha sido em algum momento de sua vida. Você poderia muito bem conhecê-lo em qualquer canto da cidade, o município era pequeno e ele estava nos momentos em que podia dando mole nas vendinhas ou pelas ruas. Mas se você um dia quisesse mesmo saber quem era aquele senhor de verdade, tinha mesmo que fazer uma visita ao estádio municipal, ao lar de sua felicidade.

Sua camisa vivia quase sempre azul, seu sorriso vinha quase sempre nos momentos mais felizes de sua vida, quando estava nas arquibancadas. As pessoas tinham por Bicudo um carinho especial e ele nem era da diretoria ou de torcidas uniformizadas. No interior ainda era possível encontrar algumas figuras absolutamente marcantes nos estádios, mas o futebol acabou por se tornar uma preciosidade meramente burocrática. Graças aos céus isso não havia ocorrido na cidade onde morava aquele senhor, por todos amado em unanimidade plena e eterna.

Mesmo quando ofendia sem querer o goleiro do time da cidade, ninguém olhava com feia expressão para trás. Apenas riam, pois ele podia, tinha o direito de qualquer coisa. Não pensem que todos tinham essas regalias, afinal ele era capaz de ver pássaros que ninguém costumava ver em uma partida de futebol. Não incomum era o momento em que ele estava olhando para o horizonte ou para os pontos nunca tocados do gramado, para o rapaz ou moça que ao seu lado estivessem, fosse o Seu Agenor, Seu Helinho, Paraná, Bazaninho ou Martinha. Fosse quem fosse, certamente seria uma pessoa de muita sorte, veria um outro jogo.

Mas os torcedores daquele time tinham uma alegria dupla em toda ocasião de gol. Além da felicidade que todos expressavam com esse fragmento curto de êxtase intenso, ver a alegria de Bicudo era algo que fazia o mundo mais feliz. As vitórias de seu time deveriam ser prometidas por decreto, garantidas por lei. Sabiam os dirigentes que aquele time não poderia ter a audácia de passar um jogo sequer sem ao menos fazer um golzinho. Quando isso acontecia, não havia um cidadão apenas que não pensava: 'Mas que pena, hoje é um dia triste a Bicudo'.

Se ele gritasse 'Galinha!' para ironizar a mascote do arqui-rival, não havia um torcedor adversário sequer a reprimi-lo. Pelo contrário, era ele um rapaz com direito a uma liberdade de expressão jamais vista antes em qualquer campo do mundo. Mas tudo isso não pode mais ser visto. Não haverá mais visitas ao mercadinho, às praças, ao estádio, às arquibancadas. Bicudo foi para ver as partidas de seu clube do coração diretamente dos camarotes do céu. Lutou até os últimos instantes de seu jogo chuvoso contra uma oligofrenia rara e degenerativa. Nunca sua partida de despedida nos gramados da vida foi esquecida: veio de uma épica vitória, com mil sorrisos e lágrimas.

Um comentário:

carlitos disse...

não comentei, mas essa história é fictícia