1 de mai de 2009

Suicidando-se a si mesmo

“Tem que ser uma jaquetada, hollow point ou então Hydra Shock se você for usar 380 mesmo.”. O sargento sabe que nessa situação, escolher errado pode ser um desastre. Não gosto dele tanto assim, mas porra, lembra da Luisinha? Pegou de lado e não tinha jaqueta, a bala andou a cabeça inteira e ela ta aí até hoje, já faz 3 anos amarrada numa cama de hospital, que nem um legume. Ainda hoje os médicos não sabem se ela reconhece a luz ou se ela sente frio e calor. Sem falar naquela coisa degradante de ficar mijando na cama.
Claro, aí foi menos a escolha de projétil (ainda sim uma péssima escolha) e mais a pontaria. As pessoas atiram de lado em livro e em filme. Na vida real a coisa é mais feia. Você tem que encostar o cano no céu da boca, quase na garganta (o chamado palato mole). De lá a bala vai arrebentando tudo e em geral vara pelo topo da cabeça – faz uma sujeirada que você nem imagina. Dependendo de onde pegar e de fatores fisiológicos como viscosidade e Ph do sangue, a mancha incrusta de um jeito que não há Cristo que tire. Rejunte de azulejo e estofamento de carro, por exemplo, são dois lugarzinhos filhos da puta de limpar.
E o Rodrigo, lembra? Puta merda, aquilo é que foi azar. Ninguém quis rezar a missa (evidentemente) e os coitados dos pais acabaram vendendo a casa pela metade do preço. E olha que nem tinha nada pra limpar não, com ele foi civilizado – uísque e Lexotan (ou similar), bem yuppie. Imagino a coitada da empregada, entrando no banheiro e vendo a cena, aquela lá nunca mais trabalha com família que tenha filho adolescente.
Comigo não. Se encontrasse uma .40 seria melhor, mas posso ir de 380 mesmo. A munição é mais barata e bem mais fácil de achar. Um ponto positivo de sentar o dedo em si mesmo é não ver sangue de pulso cortado ou ficar trancado em garagem com o carro ligado (o monóxido de carbono conserva o corpo e deixa o rosto corado, quase como se você estivesse maquiado). É claro que sentar o dedo é vantajoso, mas você tem que lembrar a sujeira que esse método faz – ainda que não seja você que vá limpar.

Nenhum comentário: