5 de abr de 2009

Sem meia-entrada no Cine Paris

O “gonzo journalism” ou “jornalismo gonzo” é um descendente do “new journalism”, o jornalismo literário inaugurado por Truman Capote com seu livro “A Sangue Frio”, escrito na década de 60. O “gonzo” foi criado pelo repórter americano Hunter Thompson quando ele foi a Las Vegas cobrir um evento esportivo, na década de 70. Thompson, porém, gastou o dinheiro previsto para as despesas com drogas e bebida, destruiu seu quarto de hotel e fugiu sem pagar a conta. Sua aventura gerou um livro, “Fear and Loathing in Las Vegas”(“Las Vegas na Cabeça”), uma narrativa vertiginosa escrita sob a influência de álcool e outras drogas.
A idéia central do gonzo é a imersão do repórter em seu material. O gonzo não conta com assessores de imprensa, sites ou telefones. O repórter tem que estar disposto a sujar seus sapatos em busca da história. O repórter se torna um personagem de sua matéria e leva o leitor consigo.
Foi esta a idéia por trás dessa matéria, mostrar em primeira mão o (sub)mundo dos cinemas pornôs do centro de São Paulo e seus personagens anônimos – seus freqüentadores e funcionários desconhecidos – concentrados sobretudo no cruzamento das avenidas Ipiranga e São João. Estes cinemas funcionam em prédios mal conservados, que durante os anos 30, 40 e 50 abrigaram alguns dos cinemas mais elegantes da capital paulista. São construções espaçosas, que acomodam vários espectadores e ainda exibem vestígios do antigo requinte (como a fachada de mármore travertino e os soalhos de madeira do Cine Paris, e a fachada moderna do Cine Art Palácio).
No Cine Paris, uma ficha que dá direito a cinco minutos de filme em uma “cabine privê” custa um real. A cabine conta com uma seleção de 10 filmes, com títulos para o público hétero, gay e até mesmo um filme de zoofilia. Só é admitida uma pessoa por vez nas cabines, de acordo com um aviso afixado na bilheteria. Ao entrar, é impossível não se impressionar com o cheiro do local: um blend meio sinistro, mistura de desinfetante barato com esperma e suor. O faxineiro desce as escadas com um balde e um esfregão e entra em um cubículo junto à bilheteria. Minutos depois, ele torna a subir a escada, com o balde cheio de um desinfetante verde de cheiro forte.
A sala de projeção, de pé direito alto e piso em madeira, exibe no momento um filme inédito, “Anal Drilling”, algo como “Perfuração Anal”, com entrada a sete reais (sem direito a meia). Uma mulher loira, de quadril largo e seios fartos está de quatro no chão, vestida com uma meia-arrastão branca estrategicamente rasgada e geme alto enquanto seu parceiro a penetra e dá tapas em suas nádegas. Para minha surpresa, às três horas da tarde de uma sexta-feira o cinema está bastante cheio. É possível ver vários assentos ocupados e, apesar de a maioria dos espectadores sentarem-se afastados uns dos outros, também há casais, tanto hetero como homossexuais.
Fico junto à entrada, encostado na parede e de braços cruzados. O faxineiro, com seu balde cheio, está lavando um dos corredores da sala neste momento, mas mesmo assim o cheiro de esperma consegue se sobrepor ao do desinfetante. Apesar da luz fraca da tela e dos gritos da loira (que pede para o parceiro ir fundo), é possível perceber a atividade do cinema: vários homens se masturbam, uma mulher faz sexo oral em um homem sentado ao fundo da sala, dois rapazes vão de mãos dadas em direção às poltronas das laterais.
De repente, percebo alguém me olhando e resolvo sair da minha parede e ir para outro lugar, para evitar qualquer situação constrangedora. Saio da sala e entro de novo pela porta do lado oposto. Agora a loira se masturba, deitada no chão de pernas abertas, seu parceiro aperta seus seios e oferece seu pênis para que ela chupe. Fico próximo a escada, de braços cruzados, tentando não chamar a atenção. Dessa vez é pior. Percebo alguém subindo a escada e por educação e medo – como diz o velho ditado, “quem tem c_ (complete com a vogal de sua preferência), tem medo” – me afasto para não ficar no caminho. Um homem de seus 40 anos passa cada vez mais perto, me olhando de maneira inquisidora. Tusso e continuo olhando a tela, finjo que não é comigo, enquanto ele me encara de perto. Depois de um tempo, o cara se cansa de me olhar e vai embora, em direção à frente da sala. Aproveito a deixa e desço a escada. Na saída, o porteiro me pergunta se não quero me limpar, apontando uma prateleira pequena cheia de rolos de papel higiênico cor-de-rosa do tipo lixa (disponível nos melhores postos e rodoviárias). Recuso e deixo o cinema para continuar minha reportagem.
Sigo a Ipiranga e viro à direita na São João. Passo por outro cinema onde funciona também um “Scot (sic) Bar e Drinks” com shows ao vivo, e também pela Galeria do Rock, que está lotada. Paro em frente ao Cine Art Palácio, com suas colunas de estilo moderno, revestidas com pastilhas verde-escuras, e suas portas trabalhadas em metal dourado. É um prédio grande, com três salas para vários espectadores. As salas 1 e 2 oferecem filmes nacionais e internacionais para o público hétero. A sala 3 exibe apenas filmes com travestis. A entrada, de sete reais sem direito à meia, como no cine Paris, dá direito a assistir a programação das três salas. Além das salas, há as cabines individuais, com uma escolha de oito filmes, sendo a maioria voltada para o público gay. As fichas para cinco minutos de filme custam um real, como no Cine Paris.
Na bilheteria, uma mulher de cabelos curtos e roupas masculinas atende o público, e contrariando minha idéia inicial do personagem anônimo, cumprimenta boa parte deles pelo nome e pergunta como vão as coisas. São todos homens, de todas as idades, desde jovens de 18 anos até senhores de 60 anos ou mais (todos os cinemas exibem cartazes chamativos proibindo a entrada de menores de idade).
Pergunto para a bilheteira o preço do ingresso e as condições de funcionamento da casa (das 9h00 às 21h00, todos os dias da semana). Ela é esquiva, como todos os funcionários do ramo. De maneira polida, se negam a responder qualquer pergunta, alegando ordens da gerência e a proteção ao sigilo de seus fregueses. Neste momento, um senhor de quase 70 anos me pede passagem e entrega uma nota de dez reais à moça. Ela sorri e pergunta ao Seu Osvaldo como ele está. Ele sorri, pega seu bilhete e seu troco e entra, desejando boa-tarde a mim e a ela.
Desisto de fazer maiores perguntas à mulher. Educada, ela dá a entender que não vai responder mais nada. Parto para um método mais prático, já prevenido pela experiência no Cine Paris, pergunto a ela qual é a melhor maneira de evitar uma abordagem dentro da sala do cinema. Ela pensa por um momento e responde que, na verdade não há alternativa, o mais seguro seria me sentar em uma das poltronas centrais e, diante de uma aproximação, ser direto e avisar que não queria nada ali. Ela acrescenta que, embora o público seja educado, é inevitável que “alguém diga alguma gracinha ou tente passar a mão em algum lugar do seu corpo”. Agradeço e olho para a saída do cinema, que deixa entrever uma parte da sala de espera. Homens de várias idades passam por ali, a caminho do banheiro ou subindo as escadas em direção a uma das três salas. Próximo à porta, há uma prateleira com os mesmos rolos de papel higiênico cor-de-rosa; neste momento, um rapaz magro, com trejeitos femininos, pega um pedaço de papel e vem em direção à bilheteria, limpando as mãos. Ele cumprimenta a bilheteira com familiaridade diz a ela que ontem estava tão fraco que ele até teve que ir embora cedo. A garota ri e diz que ele está ficando fraco. Ele amassa o pedaço de papel higiênico úmido e joga a bolinha em um cesto e diz a ela que volta mais tarde e então vai para a rua.
Volto à bilheteria e pergunto a ela qual o preço da entrada. Ela repete, sete reais com acesso a todas as salas. Pago, recebo meu bilhete e entro na sala de espera. Diferente do Cine Paris, aqui não são admitidas mulheres, apenas travestis. A atividade não fica restrita às salas: logo que entro, um jovem acompanhado de um travesti entra em um dos banheiros, localizados ao lado da escada. Um cheiro pungente domina o ambiente, a mesma combinação de desinfetante barato, esperma e suor. Subo a escada rapidamente, procurando olhar de maneira rápida, mas cuidadosa todas as salas.
Prevenido, evito ficar parado, o segredo é continuar andando. Apesar do horário, quase quatro horas da tarde de um dia de semana, o cinema está cheio, sendo que a sala 3, que exibe somente filmes com travestis, está quase lotada. Observo as outras duas salas, que também têm bastante movimento. O panorama se repete, como no Cine Paris, há um cheiro forte (apesar da presença de uma faxineira com seu balde e seu esfregão na sala 2) e o mesmo barulho de gemidos, gritos e tapas, vindos da tela e da sala.
Desço as escadas e saio do cinema. Na porta, um travesti de blusa laranja discute com o porteiro a respeito de um dinheiro que alguém deve para o travesti e que ele precisa receber rápido. Agradeço a bilheteira e caio na avenida São João, andando depressa e fingindo que nunca fiz outra coisa da vida que não fosse freqüentar cinema pornô às sextas feiras de tarde.
Por um lado, o laconismo dos funcionários e o silêncio dos fregueses. Por outro, uma certa promiscuidade entre este mesmo funcionário e seus clientes mais assíduos. De um lado, o assédio, a licenciosidade da sala de projeção. De outro, o blend desinfetante, esperma e suor, o papel higiênico tipo lixa. A imagem da tela, a tara, o fetiche versus o mundo real, a AIDS, os cinco minutos da ficha para a cabine privê. No meio dessa dicotomia, o gonzo; o repórter como um personagem da sua própria matéria guiando seu leitor em um universo desconhecido, através de um olhar muito mais próximo. Este repórter apenas aconselha que não se aproxime demais, afinal, pode ser inevitável “que alguém diga alguma gracinha ou tente passar a mão em algum lugar do seu corpo”.

7 comentários:

Max disse...

Nasce uma lenda no jornal da SF

j. caldeira disse...

bacana, mario! você já tinha me contado as histórias, mas eu tava curioso pra saber como ia ficar o resultado da matéria. e parabéns, tem que ter um certo culhão pra fazer esse tipo de coisa.

ah, e só uma correçãozinha besta: o fear and loathing... foi relançado no brasil pouco tempo atrás com o nome de "Medo e Delírio em Las Vegas", diferente do título da primeira edição.

Anônimo disse...

Ui...
Cola o seu na parede!!!!

Alan disse...

Isso resume tudo: "Ao entrar, é impossível não se impressionar com o cheiro do local: um blend meio sinistro, mistura de desinfetante barato com esperma e suor".

Belo texto.

carlitos disse...

tava na cara q era do mário, 1298133723 toques

wrmsp1 disse...

Que história é essa de reportagem?

Se joga, bee!

KÄSS disse...

Olha eu aqui também ! AHAUHAUAHAUHAUAHAUHAUAHAUAHAUHAUAHUAHAUAHUAHAUAHUAHAUAHUAAUHAU ... !