5 de mar de 2009

Direto do túnel do tempo

Matéria para o Jornal Contraponto Abril/2006

Manifestações explicitam urgência nas reivindicações sociais

Atos de movimentos populares, como as invasões da Via Campesina e as ocupações do MST, mostram que protestantes não suportam mais esperar pela lenta e muitas vezes incompetente justiça nacional

Pela demonstração de uma incessante luta pela busca de reformas, não somente sociais, como também políticas, a manifestação realizada pela Via Campesina no dia 8 de março na cidade de Barra do Ribeiro, no Rio Grande do Sul, entrou para a história como um dos atos mais polemizados dos que já foram realizados por um movimento social, ato esse que somente tomou essa dimensão, tão explorada pela mídia brasileira como uma mera ação de vandalismo, devido à incompetência de governantes e de outras esferas que detém o poder de mudança, embora se neguem a fazê-las.
Logo no primeiro momento em que os meios de comunicação começaram a vincular informações sobre esse caso, ou seja, praticamente instantaneamente aos acontecimentos que marcaram a manifestação, pouco se procurou averigüar e muito se procurou sensacionalizar, repetindo uma das mais fortes marcas dos trabalhos jornalísticos feitos nos dias atuais: alcançar o furo a qualquer custo.
Duas mil mulheres invadiram o horto florestal da multinacional Aracruz Celulose, empresa instalada em diversos pontos do país, e destruíram mudas de eucalipto pertencentes ao setor laboratorial da multinacional, que alega ter sofrido prejuíso de aproximadamente US$ 20 milhões; assim foi tratada a manifestação, principalmente em matéria feita no jornal Estado de S. Paulo do dia 10 de março e também no Jornal Nacional do dia seguinte à manifestação.
Segundo essa parte da imprensa, que pareceu publicar informações que somente visassem o lado de vítima da multinacional, a destruição causada no setor de pesquisas da empresa não somente atrapalha o desenvolvimento da agroindústria brasileira, como também está assustando investimentos estrangeiros, como demonstrou a matéria do Estado de S. Paulo do dia 26 de março, que exalta investimentos no país quanto às plantações de eucalipto; uma visão totalmente oposta à que colocou o jornal A Hora do Povo do dia 10 de março, que realizou um trabalho que não se baseou a atacar a manifestação e sim a procurar os fatores que motivaram tais atos, dando voz e chance de defesa aos protagonistas daqueles atos.
A Aracruz divulgou que apenas daqui a sete anos conseguirá recuperar os avan-ços que havia feito até a noite da manifestação, que foi apoiada pelo coordenador na-cional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Stedile. O jornal Folha de S. Paulo deu foco mais claro nesse detalhe em sua edição do dia 9 de março. De acordo com as palavras do próprio Stedile, nessa matéria: “Os governos são puxasacos das multinacionais. O que é incrível é um governo de esquerda também ser”. Essa mesma Aracruz que foi tratada como vítima no dia 8 de março, recebeu multa de R$ 606 mil do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), por plantio de eucalipto em local irregular, no município de Prado, na Bahia; fato que não recebeu nenhuma notícia direta das grandes mídias e ao contrário do que muitas pensam, essa não foi a primeira vez que isso ocorreu. Em dezembro, a empresa Veracel, também de celulose, recebeu multa de R$ 360 mil, também do Ibama por descumprir seus compromissos quanto à regeneração da Mata Atlântica.
Ainda no mês de março, diversas mobilizações marcaram a luta de movimentos sociais contra esses tipos de agressão ambiental, como a conferência da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e o encontro nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que discutem outro drama que afeta comunidades rurais e indígenas, principalmente no norte da Bahia com a hidrelétrica de Itaparica, da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), que inundou terras dos índios tuxás e foi obrigada a indenizar as famílias prejudicadas.
Em uma das raras oportunidades para transmitir suas motivações, as próprias mulheres que participaram do ato em Barra do Ribeiro se declararam “contra os desertos verdes, as enormes plantações de eucalipto, acácias e pinus para celulose, que cobrem milhares de hectares no no Brasil e América Latina”, todavia o que defensores das multinacionais sempre argumentam é o polêmico ponto: não seria esse um mal necessário? Existem milhares de empregados que dependem desse tipo de trabalho, sem contar que o uso da celulose ainda se mostra bastante necessário e principalmente rentável – basicamente para empresários – na atual conjuntura mundial. Mas por qual motivo esses mesmos empresários escolheram o Brasil para isso?
É fato que o governo nacional é fraco e esse problema não se restringe apenas à atual equipe governamental: é um problema histórico brasileiro, que deixou e ainda deixa que essas multinacionais usem e abusem dos vastos e baratos terrenos brasileiros, raramente dando alguma satisfação para ONG’s e grupos que defendem a preservação de bens naturais enquanto ainda há tempo para isso. Grande parte do povo sobre esse assunto, muitas vezes iludido pela esperança de oportunidades profissionais, não abrem os olhos para esses perigosos danos ambientais.

Degradação – Estas mesmas empresas de celulose, mineração e energia, que juntas faturam mais de R$ 50 bilhões por ano, causam em seus arredores, danos de proporções absurdas, como nos pampas gaúchos, em reservas da Mata Atlântica, dentre outras regiões que sofrem por explorações desmedidas; o fato é que a monocultura do eucalipto destrói o meio ambiente em que ela é implantada. Acuados e sem ter os mesmos direitos de poderosos empresários, quem paga a conta são os índios e os pequenos produtores, que cada vez mais têm seus futuros jogados em uma injusta relação de sorte e azar, dependendo de medidas judiciais para conseguirem repasses financeiros, dos quais têm direito. Mesmo quando instituições como a Fundação Nacional do Índio (Funai), conquista vitórias nos tribunais, as grandes empresas conseguem liminares e revogações que impedem decisões anteriores de se tornarem reais na prática – algo mais do que comum para quem está acostumado com a justiça nacional.
Apoiadas pelas mídias fortes, como a revista Veja do dia 29 de março, empresas como a Companhia Vale do Rio Doce e a própria Aracruz não têm seus casos explicitados com a mesma ênfase quando contra-atacam manifestações de índios em terras que a Funai já contesta há muito tempo como de direito das etnias, tratadas pela mesma Veja como chantageadoras que tiram milhões de empresas; a revista Época vai pelo mesmo caminho e relata em sua matéria do dia 20 de março que o cacique Vilson de Oliveira, da aldeia Caieiras Velha, “fala português, usa celular, mora em casa de alvenaria e quando negocia com a Aracruz se apresenta como Jaguaretê, – seu nome em dialeto tupiniquim – pinta o corpo e usa cocar”.
Nesse ponto a polêmica começa a ficar ainda mais evidente, quando alguns defendem os índios ao considerarem que eles são realmente corretos em suas reivindicações, tendo direitos históricos e sociais às áreas que requisitam; enquanto isso, do outro lado, existem os que os acusam de serem considerados “crianças sem malícia”, que chantageiam as multinacionais para conseguir benefícios financeiros, como claramente se posicionou novamente boa parte da mídia, não somente nas revistas, como também nos jornais, mesmo que de forma menos explícita.

Motivos – Em janeiro deste ano, precisamente no dia 20, índios tupiniquins e guaranis ocuparam a fábrica da Aracruz no Espírito Santo, pedindo a ampliação de suas reservas de 7 mil hectares para 18 mil, porém a empresa teve ao seu lado documentações que comprovaram que era de seu direito judicial 95% das áreas requisitadas, como informou a revista Veja em sua matéria sobre o assunto. Ao não obter êxito em âmbitos judiciais, a única alternativa desses grupos é partir para atos mais extremos, como invasões e ocupações, tão temidas pelos grandes empresários, diretos causadores de seus próprios temores. Com isso, a mídia tende a tomar decisões equivocadas, mesmo que não intencionalmente em algumas vezes, principalmente quando a notícia é quente e dada sob pressão do tempo, como grande parte das matérias sobre a manifestação da Via Campesina e outras ocupações do MST, por exemplo.
A explosão de manifestações que ocorrem nos últimos tempos não param apenas ao se comentar sobre a Via Campesina ou as batalhas travadas entre multinacionais e etnias indígenas; o MST está em plena atividade, realizando ocupações e também a chamada Jornada da Luta, iniciada em março para lembrar os 10 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 19 integrantes do MST foram assassinados no Pará. Até o momento ocorrem 28 ocupações e mais de 4 mil famílias estão acampadas somente no Pernambuco, segundo informações da página virtual do MST.
A história do MST diz por si só por quais razões ocorre nos dias de hoje essa sucessão de manifestações, que tomam conta de diários e noticiários: por tanto serem menosprezados em meios políticos, apenas o radicalismo é capaz de chamar a atenção de meios de veiculação de informação – com isso formadores de opinião – tão fechados e cada vez mais despreocupados com a qualidade e a imparcialidade da notícia.
Então o que escolher nesse confuso labirinto? A tecnologia que pode fazer avançar o setor agroindustrial brasileiro, mesmo que de forma tão prejudicial, ou optar pela não aplicação de investimentos nesse setor, o que em teoria ao menos aliviaria o meio ambiente brasileiro de determinadas agressões? Sem contar na justiça que teriam etnias indígenas, mesmo depois de tantos séculos de repressão. Parece que em um primeiro momento, a população que enfrenta esse tipo de conflito de perto, escolheu pela primeira opção, já que os trabalhadores pensam no lado financeiro desse avanço industrial, ao passo que grande parte deles não parecem se importar com as conseqüências futuras desse tipo de “evolução”.

BOX: Algumas ideologias da Via Campesina

Abrangendo organizações camponesas de agricultores, trabalhadores agrícolas e comunidades indígenas, esse movimento internacional tem como principal bandeira o apoio da produção de alimentos sadios (livre de mudanças genéticas e do uso de agro-tóxicos), ao mesmo tempo em que procura manter a produção adaptada à cultura dos países em que atua.
É um grupo que não defende uma agricultura tecnológica, recorrendo a um esti-lo mais natural, na intenção de causar o menor dano possível à terra; defende que os camponeses devem ter voz ativa em discussões sobre políticas agrícolas e alimentares, algo que há muito tempo é batalhado, não somente pela própria Via Campesina, como também por movimentos de trabalhadores rurais de forma geral.
Atualmente estão ativos muitos fóruns que visam mudar, ou ao menos tentar mudar, os aspectos mais conservadores que caracterizam esse grupo, principalmente quanto ao uso de novas tecnologias e ferramentas, que muitas vezes podem significar diretamente na melhoria de técnicas agrícolas, realizando discussões sobre a regula-mentação da prática da biodiversidade, principalmente dentro do aspecto da ma-nutenção ou não de recursos transgênicos na agricultura.
José Bové, um dos fundadores da Via Campesina, explicita de forma bastante clara as idéias desse grupo quando comenta sobre reuniões da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do Acordo Geral do Comércio dos Serviços (AGCS): o movimento procura erradicar a agricultura que tenha a mercantilização como fundamento e para alcançar isso, tanto realiza atos de rua como age na área política, participando de fó-runs e assembléias, junto de outras ONG’s.

Reforma agrária segundo a Via Campesina – segundo as idéias do movi-mento, os locais onde não ocorreram reformas fundiárias são ainda reféns de certos problemas, evidentemente como a concentração da propriedade da terra para uma mi-noria da população, que não tem condições de usurfruir de tanto potencial: um ponto em comum com as ideologias do Movimento Sem Terra (MST).
De acordo com pensamentos desse movimento, o acesso à terra por parte dos camponeses deve ser entendido como a garantia de valorização de sua cultura, o que valorizaria a preservação de recursos naturais, assegurando qualidade de vida às pró-ximas gerações. Em época de diversos acontecimentos como a IV Assembléia Geral da Via Campesina e o Fórum Social das ONG’s, a Via Campesina deve defender todas es-sas idéias diante do secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, em uma reunião que promete ser um momento histórico para o movimento.

2 comentários:

Alan disse...

Matéria imparcial.

Max disse...

Carlitos depois da gravação do Pod resolveu embarcar sério na idéia de túnel do tempo...