13 de nov de 2008

A demagogia nossa de cada dia

Um dia eu acordei e me dei conta que o tempo tinha passado. Eu não era mais o que fora antes e o mundo também mudara, sem que eu percebesse. De repente, era hora de chamar para mim a responsabilidade do mundo, assumir as conseqüências de meus atos e pensar no futuro. E fabriquei minha vida.
E hoje, ainda perdido, buscando apoio, qualquer que seja, um esteio para caminhar pelo mundo, às vezes me deparo com escolhas que não conheço e das quais desconfio e penso em um garoto. Eu o conhecia bem.
Ele tem 17 anos e está parado no ponto de ônibus, sozinho. É uma quarta feira e faz muito sol, como é normal em Brasília. Ele está de preto, com coturnos amarrados até a canela e transpira, carregando uma mochila cheia. O sol está forte, ele sua cada vez mais, os cadarços das botas militares apertam os pés, a mochila começa a pesar sobre o ombro. Ele se senta e coloca a mochila a seu lado, na guia da calçada e continua esperando o ônibus, sozinho. Ele só quer voltar para casa.
Mas o que diferencia este rapaz é que ele tem fé. Ele ainda acredita, a despeito do sol quente, do peso da mochila e dos coturnos apertados. Ele sabe que tudo tem seu tempo.
Ele sabe que o sábado vai chegar, e com o sábado mais uma festa. Ao som de Jimi Hendrix, com cerveja bem gelada, os amigos presentes, um maço de cigarros e a Natália ficando mais bêbada a cada Cuba Libre. Ele espera o sábado e sabe que o sábado vai chegar.
Ele espera pelos 18 anos, pelo carro da mãe. Ele acredita na alta velocidade. Ele sabe que é crime, mas a placa é de outro estado e ele acredita na ineficiência do DETRAN.
E um dia acordei e não tive mais notícias deste garoto. Nunca mias soube dele, onde ele estava, o que estava fazendo. Mas sei que ele ainda tem fé. E cada vez que me defronto com uma escolha, uma bifurcação no caminho que me leve de encontro àquilo que acredito, penso comigo “Quem sou eu? Quando foi que me tornei superior a ponto de esquecer o exemplo daquele cara? Qual foi o dia em que me perdi dele?”. Eu ainda me lembro, e não vou esquecer, que um dia esse rapaz, apesar do calor, da roupa preta e do peso da mochila esperava o ônibus sozinho porque sabia que o sábado ia chegar.
Eu.

2 comentários:

bruno disse...

mario, gostei mto do texto!

João Villaverde disse...

Bom texto, Mário.
Está quase irretocável. Pessoalmente, tiraria o último "eu", já que fica subentendido logo de início que você está falando de si próprio.