26 de ago de 2008

Sala 51

Eles são como companheiros de uma viagem de ônibus. Uma viagem longa e cansativa, por uma estrada esburacada. A maioria está no ensino médio, alguns acabaram de sair da escola, outros fazem faculdade e uma minoria trabalha; pelo menos durante a tarde é assim. A sala, em forma de auditório, deve ter cerca de 100 estudantes que têm trabalhos, lições de casa e coisas assim pra entregar, mas acima de tudo querem, precisam passar no Vestibular. Bem vindo a uma sala de cursinho.

As maiores preocupações são os vestibulares da USP, PUC, GV, Mackenzie e Cásper Líbero. Mas há ainda as festas do Santa, na casa do Tchelo, a balada do Rio Branco e a Hotel no final de semana (de qualquer forma, são todos iguais). A não ser pela turminha, as pessoas não conversam muito umas com as outras. Afinal, como um professor ressaltou no primeiro dia, esta pessoa a seu lado não é sua amiga, ela é sua concorrente. Clima saudável, ambiente amigável está se vendo.

Na parte posterior dos encostos das poltronas – de madeira, com assento dobrável, como em um cinema antigo – anos e anos de assinaturas, palavrões, tiradas engraçadinhas e declarações sacanas de amor, um mural tão diverso no tema quanto na técnica, composta por liquid paper, caneta esferográfica, marcador permanente e o sempre eficiente canivete.

Durante três horas, de segunda a quinta, os quase 100 estudantes ocuparão uma das poltronas de assentos dobráveis, sentados lado a lado com seus concorrentes e copiarão com zelo de maníaco os esquemas e resumos que um grupo de professores treinados ditará ou anotará em uma lousa, que é apagada com uma toalha molhada, para que o pó do giz não se espalhe pela sala; uma sala cujas janelas ocultas por cortinas têm os vidros pintados, iluminadas por lâmpadas fluorescentes e refrigeradas por um sistema implacável de ar-condicionado.

Quem são os professores? Talvez um misto de professor, treinador e apresentador de auditório, armados de microfones, aulas minuciosamente planejadas, resumos e piadas para descontrair os alunos e facilitar a memorização de fórmulas, nomes e datas. Em geral são mais velhos, mas há também professores até bastante novos, normalmente vêm de colégios particulares. Há pouquíssimas mulheres dando aulas, por alguma razão ainda desconhecida.

E começam as inscrições para os vestibulares. E todos correm a um balcão para comprar seus manuais e fichas de inscrição, se se entregarem a uma prova em que, acreditam, estarão depositados seu futuro, sua carreira, sua vida, seus sonhos e esperanças. Tudo isso transformado em um código, que será arquivado por um computador e lido por uma máquina no momento certo, marcado em tinta preta sobre uma folha de papel. Então, estes sonhos, estas esperanças, estas carreiras e estes futuros estarão publicados nos jornais e impressos em folhas intermináveis de papel afixadas em um mural, como ex-votos de uma igreja. E os encostos das cadeiras terão recebido mais um ano de sinais e marcações.

Um comentário:

bruno disse...

ótimo texto. fez com que eu me lembrasse dos pormenores de uma aula de cursinho.