26 de ago de 2008

Sala 51 - Para Natália

Ele é como o cara que senta do seu lado em uma viagem de ônibus. Uma viagem cansativa por uma estrada esburacada. Uniforme de colégio, faz terceiro de manhã, cursinho de tarde, deve chegar em casa cansado paca. A maioria da sala está no terceiro colegial, quase todo mundo de uniforme. Um ou outro tem cara de mais velho, deve fazer faculdade, trabalhar ou então é aquela turma da pós-graduação pré-vestibular, quarto vestibular pra Medicina. A sala, parece um auditório, deve ter umas cem pessoas, todo mundo quer, precisa passar no vestibular.

Eu me faço de CDF, mas não é só o vestibular, lógico. Tem a festa do Santa, na casa do Tchelo, a balada do Rio Branco e a Hotel no final de semana - de qualquer forma, são todos iguais, uns caras meio bichas, garotas vulgares (pinta de puta, tá me entendendo?), uma gente que não ia fazer a menor falta. Do meu lado, meu companheiro de viagem não tá nem aí. Coça a cabeça, vira a página do caderno universitário e continua escrevendo. Os óculos refletindo as folhas, a lapiseira indo e vindo, só pára pra dar uma conferida na lousa e continuar a anotar.

A parte de trás das poltronas – de madeira, com aquele assento dobrável, que nem um cinema antigo – tá toda rabiscada, desenho, caricatura, palavrão e assinatura, que nem uma pintura das cavernas, feita de liquid paper, caneta esferográfica, marcador permanente e canivete. Na poltrona da minha frente tá escrito “O Theo é broxa” e “GAVIÕES DA FIEL”, na poltrona do lado “czar Nicolau Romanoff 2, ed. fisica, 1918”.

Três horas, de segunda a quinta, eu sento nessa mesma poltrona e três horas, de segunda a quinta ele senta do meu lado. Sempre a lapiseira indo de lá pra cá bem rápido, o caderno universitário vai abrindo e fechando, conforme ele vira as folhas. Pára pra conferir a lousa, ajeita os óculos, coça a cabeça e volta pro caderno. Quem é esse cara? Quatro meses e nem o nome de alguém que senta do seu lado todos os dias você aprende. E a sala sempre fechada, eu, ele e todo o resto na luz branca do teto, as janelas pintadas e com cortina.

A lapiseira dá uma folga, ele tira os óculos e esfrega os olhos, eu aproveito pra esticar as pernas e dar uma olhada no celular, muda o professor. Professor de cursinho, sempre a mesma desgraça. Ou uma múmia tarada, saída de um conto do Nelson Rodrigues ou aquele garotão com jeito de recém-formado da Letras ou da Sociais, camiseta do Che Guevara, barba de Los Hermanos, recitando poesia, morando no Centro e, por que não, comendo aquelas alunas mais atiradas. No geral, uma mistura de líder escoteiro, sargento e instrutor de academia, um saco. Professora (gostosa ou não) de cursinho ninguém nunca viu.

Segunda, depois da pré-formatura do Dante, começou a inscrição pro vestibular. E todo mundo foi pro balcão comprar o manual. Do meu lado, a lapiseira vai e volta na ficha de inscrição. Ele confere o manual e volta pra ficha, confere o RG e volta pra ficha, dobra a ficha e coloca na mochila. Agora ele só precisa colocar o número do ENEM (domingo, depois tem um churras na casa do Tchelo). Devia ter aproveitado pra ver o nome dele na ficha.

Será que no ano que vem a lapiseira vai continuar escrevendo daquele jeito, se ele passar? Direito, engenharia, ADM, comunicação...no que será que ele se inscreveu? Que nem o professor (meninão, deve morar no Copan) falou, ele não é meu amigo, é meu concorrente...será que eu vou disputar uma vaga com ele? Daqui a uns dias, ele (meu concorrente?) e eu vamos ser dois números em duas folhas diferentes.

Ninguém é assim tão diferente.

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