1 de jun de 2008

Por uma rua Augusta menos eclética, plural e acolhedora

Não sei se alguém leu o caderno Metrópole do Estadão de sábado. Na última página, C8 se não me engano, uma matéria longa e ilustrada fala à respeito do renascimento da Augusta, e de sua enorme diversidade. E foi com reserva e alguma tristeza que eu li este texto.
Não faz muito tempo, não era legal andar pela Augusta. Sei bem disso porque me lembro como se fosse ontem (e na verdade foi quase ontem) de ir até lá e dizer pra minha mãe que eu estava na casa do Luisinho ou que eu ia ao shopping Eldorado assistir um filme. Meu pai falava que era uma área abandonada pelo descaso do poder público. Coisas assim. Eu não devia, mas por alguma razão gostava de lá, daquela atmosfera de submundo, da sujeira, de fazer alguma coisa idiota que eu sabia que era perigosa.
Voltei para São Paulo já grandinho e comecei a ir mais e mais vezes. E pude perceber algo bem diferente das madrugadas de 2004 e 2005, quando sentava de frente pra porta e não saía de perto da galera. As calçadas estavam mais limpas, sem dúvida. Com o tempo, foram trocando as lâmpadas dos postes e a rua foi ficando mais clara. A PM começou a fazer uma ronda regular por lá. Os tempos tinham mudado.
Passeando por lá vi o quanto a rua estava mudando e a que velocidade. Quando não era um lugar novo que abria, era uma espelunca que tinha sido totalmente reformada. A porra do Vitrine, infelizmente, estava cada vez melhor. Nunca tive muita esperança com relação ao Vitrine, na verdade, só vivia torcendo pra acontecer uma explosão de gás ou um incêndio lá.
Sempre teve uma cambada de retardados que achava legal freqüentar a Augusta. O problema é que de 2004 ou 2005 pra cá, a rua estava mais iluminada, mais segura e cheia de opções novas ou reformuladas pra esse pessoalzinho do barulho aprontar altas confusões. De repente, eles podiam ir até lá sem que alguma alma caridosa de cabelo moicano e coturno enchesse eles de porrada. Era de matar. A porra do poder público tinha resolvido olhar pra rua Augusta e acabar com aquele esmerdeio urbano tão característico. Agora só faltava o Mickey e o Pateta pra animar a galerinha.
Confesso que tentei ao máximo não dar atenção. As primeiras tentativas envolviam o puteiro. Pelo menos lá o papai e a mamãe ainda não querem que eles vão. Dava pra chegar, falar com o porteiro e sentar com as putas pra tomar uma cerveja. Ou umas cervejas, quantas você agüentasse. Um lugar que ainda conservava o lado feio, sujo e malvado da Augusta, com uma mulherada pra lá de Bagdá usando perfume de vagabunda e te chamando pra fazer um amor gostoso. Mas puta merda, a vida não era pra ser isso! Eu gosto do submundo, não do fundo do poço. Não deu pé.
A matéria de sábado foi a gota. Metade da turminha de Pinheiros, da Vila Olímpia e da Vila Madalena mudou a área de cobertura. É só lembrar (e boa parte das pessoas que estão lendo isso vai concordar) do aumento nos preços. A cerveja não ficou ligeiramente mais cara? Os bares não reajustaram os cardápios? Não foram abertos três bares novos entre a Fernando de Albuquerque e a Matias Aires? A Sarajevo não aumentou os preços?
Sou plural. Sou a favor da diversidade. Acho que a noite é pra todo mundo curtir numa boa. Todas as tribos juntas, com baladas ecléticas em um só lugar e tal. Mas pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, vai fazer isso longe da Augusta!

Leia se tiver estômago...

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080531/not_imp181519,0.php

Querem apostar que essa porra toda começou depois que uma filha do Andrea Matarazzo ou uma sobrinha do Kassab resolveu que queria ir pra Augusta?

2 comentários:

j. caldeira disse...

concordo contigo, rapaiz - mas até ontem não era você mesmo que dizia que a melhor coisa pra essa cidade foi ter um prefeito viado?

bruno disse...

Como sempre, nas palavras de mario bucci a Augusta se transforma num espaço sublime. Não há quem escreva melhor sobre aquela zona de meretrício. Perdê-la é, para ele, como perder um chão. Mas superamos, mario.