30 de abr de 2008

Bimbotron

A volta da viagem parecia um prenúncio de como seria meu ano de agosto em diante. Aquela pilha de jornal quase do meu tamanho, 3 semanas de Folha de São Paulo ali na porta, me esperando chegar. Claro que a luz não acendeu, tinha 3 meses que eu não pagava a conta e a geladeira, bem, a geladeira, meu amigo, era um desastre a parte. No congelador, a essa altura convertido em estufa, 4 quilos de carne se liquefaziam.

Tudo isso é um bocado triste, mas ainda não é a estória toda. Dois ou três meses depois, a Natália voltou a surtar e como de costume, sobrou pra mim; para falar a verdade, nem dei bola, não era a primeira vez e certamente não seria a última.

Aí você acaba ficando cabisbaixo e se sentindo, sei lá, pouca coisa, mas de repente te mandam ficar de pé e agora eu tava mais alto que todo mundo e me tratavam que nem gente grande e eu fiquei achando que era uma grande coisa dar plantão no final de semana arrotando o pão de alho do jantar.

E não menos que de repente, voltam das cinzas pra te fazer chorar (outra vez) e cadê todos aqueles idiotas que eram cheios de achar que tinham engolido a tabuada mas que agora estavam tirando o corpo fora e vem o outro e diz que não sabe como me explicar mas ele mudou de opinião.

Haja saco, e agora, o que é que eu faço? Azar, não tem muito o que fazer, é tocar adiante e fazer de conta que nada daquilo é com você e daí você ignora tudo e todos em volta e se liga que isso é importante e então deixa as coisas esculhambarem de vez.

Talvez, uma hora ou outra, eu pudesse ter lembrado do Fellini, amanhã é tarde, mas nem sempre as coisas acontecem desse jeito. Ela me liga de surpresa, chega sem avisar e falou que estava grávida e tudo que eu consegui depois de lutar pra engolir o misto-quente foi perguntar se tinha sido planejado e daí ela foi embora com o namorado e eu fiquei olhando eles indo embora e achei aquilo muito triste e pensei se ia ser menino ou menina.

E você viaja e chegando em Brasília todo mundo corre pra me ver mas é como se eu nunca tivesse me mudado e mais umas duas horas e eu estou rolando pelo chão e vomitando na sarjeta e quando eu vou comprar cigarro eu aproveito para dar o maior show, cantando a plenos pulmões e chamando o frentista de meu bróder (eu sou assim porque eu sou a lenda, eu não fumo Free nem Derby, só Lucky Strike).

Acho que não vou mais ver a Natália andando descalça pela casa. Na verdade, é até compreensível que qualquer um ficasse meio que com nojinho de meninas depois de tirar aquele sutiã ridículo e sentir aquela penugem toda na boca, volta à infância, como a manga sapatinho que nós comíamos na casa de nossas avós depois do macarrão com frango de domingo.

Aquele Natal foi com certeza o pior de todos, só não foi pior que o Ano Novo. Eu trabalhando e a puta me diz que chama Joyce e que fazia por 40, mas se juntasse todas as putas que a gente viu aquela noite não dava uma arcada dentária completa.

Acabei voltando à Brasília e ele conseguiu me arrastar para um lugar que ninguém gosta para que ele pudesse dar em cima da filha (gostosa) do chefe, que no fim das contas ele não comeu. Gastei meu dinheiro à toa e na noite seguinte fomos pra casa do Catito e eu enchi a lata e fui no posto comprar cigarro e ela me liga às 4 da manhã e eu fiquei querendo perguntar o que ela estava fazendo lá àquela hora mas ela desligou e daí depois eu fui saber que quase tinha acabado com o namoro deles. No dia seguinte, a Natália chegou pior do que nunca e eu fiquei pensando nas Havaianas brancas que ela deixou debaixo da cama quando foi pra cozinha acender o forno.

Cada vez mais as coisas iam de mal a pior e vou dizer uma coisa, a cana é péssima conselheira mas se não fosse pela birita, quem sabe eu nunca tivesse tomado nenhuma iniciativa. Não que qualquer uma delas desse resultado, mas eu só ia ver isso bem depois.

Depois de um tempo eu já não agüentava mais ficar guardando aquela porra toda só pra mim e contei tudo pra Rafaela e ela me falou que não ia adiantar eu ficar me preocupando e me culpando e criando problema pra mim mesmo e que eu tinha que ter paciência, que era como uma bomba que uma hora ia explodir, mas eu tinha que ter paciência. Por enquanto eu tenho a impressão que a Rafa não entende grande coisa de bombas.

A Natália ficou doente, teve lá qualquer coisa e eu fui correndo ver ela pra ter certeza de que ela ia ficar bem e o Soneca me falou pra ter um mínimo de dignidade e aceitar que tudo que eu fizer vai ter conseqüência. Eu tinha perdido 5 quilos desde setembro (setembro, setembro, sempre setembro) e minha calvície estava pior que nunca e eu não ia agüentar o sósia brasileiro do Afroman achando que comia a minha mãe e disse pra ele ir cuidar de vida dele e o Mozart me disse pra relaxar e ficar de boa, aí eu bebi até enjoar, vomitei no banheiro de empregada e acordei de ressaca no dia seguinte.

Meu aniversário chegou e, apesar de ter convidado a sala toda com entrada de graça, é evidente que a maioria das pessoas tem coisa melhor pra fazer. Porém nós fomos ao Geni e fizemos uma esbórnia bem maior que de costume, tocamos um puteiro federal no lugar e eu fui embora e no dia seguinte não tenho certeza de como voltei pra casa e fico me achando um inútil.

E de novo eu encontro a Rafaela, mas eu nem ligo e roubo a sandália da amiga dela (aliás, não sei porque fiz isso, a sandália era 34 e eu calço 40) e fico cantando Raimundos com o vizinho do Catito e a Rafa me fala pra sair dessa mas tá ficando tarde e o pneu do Cossaco furou tem mais de uma hora e a gente vai lá que ele tá sem macaco e sem chave e o Catito já tá mal pra cacete e eu me ofereço pra buscar o carro dele e ele diz que nem fudendo vai deixar esse idiota dirigir. A amiga da Rafa conseguiu sei lá como pegar a sandalinha vermelha dela de volta e eu e o Phil encontramos as duas no temaki depois e comemos feito dois mortos de fome.

Acabei indo pro bar com a Natália e tive que estacionar o carro dela porque a vaga era apertada e a gente sentou e começou a pedir mojito e tequila sunrise e eu gastei um dinheirão e ela falou que queria viajar para o México e prestar medicina e eu já não estava me sentindo tão bem assim aí ela me ajudou a ir até o carro e eu não tenho muita certeza de como ela fez pra manobrar depois.

Eu achei a Virada Cultural uma piada de péssimo gosto, mania desse povo subdesenvolvido de achar que depois da gestão Kassab São Paulo virou Paris e que agora aqui vai ter o rio Sena, a Torre Eiffel e a doença da vaca louca. O João acabou ficando de saco cheio e me arrastou de volta pra casa antes que eu acabasse apanhando e eu acho que da próxima vez que eu sair pra beber eu vou deixar o celular em casa.

No domingo foi meu último dia de Band e eu fiquei chateado porque ali tinha sido o primeiro lugar que realmente me trataram como homem, embora todo mundo achasse que eu fosse viado. O bom é que o supermercado estava aberto e o René tinha um CD do Stratovarius e ficou uma parada meio oriental e a gente fez lamen e descolou um sake e eu não queria mais ter ido para o Rio e nem ter viajado e ter sido menos bunda mole e ter quebrado mais a cara antes e eu coloquei o Michael Jackson pra tocar e como já tinha esquecido de sábado eu aproveitei pra usar o celular e aí eu apaguei e acordei achando que tava certo, não adiantava mesmo ficar me sentindo culpado, mas ela estava certa e tem coisa que nunca muda.
===

Peço desculpas se o texto está muito longo e se a leitura é cansativa. Na verdade esse texto é uma resposta ao post "Promessas" publicado pela Paulinha no Gineceu. O meu post é uma homenagem a todos os membros do Blog Androceu, que já passaram por bons e maus momentos mas acima de tudo sabem que a nossa amizade é foda! Ah é, e sexta tem show do Engenheiros!!! \o/

3 comentários:

Zine Qua Non disse...

Mário, já percebi que meus textos causam coisas dentro de sua cabeça e do coração, acredito.
Tô ficando com medo de um dia desencadear algo que eu não compreenda em você e acabe achando que não deva mais escrever tantas verdades e sentimentos que aparecem em mim. Mas também fico feliz por conseguir ver um pouco o que se passa em sua cabecinha, Marião.
Você escreve com verdade, muita verdade.
Escreva mais para eu poder ler e responder com um texto, pois o que você escreve também pode desencadear algo em minha cabeça e coração.
Beijos enormes

bruno disse...

Mario...texto muito bom..tem uma coisa acelerada...quando li, me senti sem fôlego, não no sentido d q ele está longo ou mal escrito, mas pq, como disse a paulinha, está cheio d verdades. Alías, verdades, ou não...Só vc é q pode saber, certo?

Alan disse...

Não curto Engenheiros, mas curti seu texto.