4 de mar de 2008

CARNE VIVA

A zona do meretrício mais famosa de São Paulo

Por Mario Bucci


Durante o dia, a rua Augusta é mais uma rua na paulicéia desvairada. Pedestres apressados, carros buzinando, ônibus furando sinais e mendigos sob as marquises. As pessoas passam esbarrando umas nas outras, desviando das poças d’água e buracos nas calçadas mal-conservadas. À noite, porém, é possível ver a outra face da moeda. O movimento diminui sensivelmente e os bares e casas noturnas acendem suas luzes e se enchem de clientes.
Quando anoitece, o lado “centro” da Augusta, do lado de lá da Paulista, ganha outras cores. A noite fica iluminada em roxo, vermelho, rosa e lilás com os anúncios em néon de vários clubes noturnos que se concentram entre as ruas Fernando de Albuquerque e Marquês de Paranaguá. Há mulheres e travestis que fazem o trottoir pela rua, alguns escandalosos, outros discretos. Em geral, os clientes os abordam de carro e o programa é feito em um pequeno hotel na região.
Diversas boates se alinham ao longo da rua. Em todas elas, um porteiro, ou às vezes mais de um, fica na porta, abordando os possíveis clientes com certa insistência. “E aí, rapaziada, vamo se divertir hoje?”, ou “Que tal conhecer a casa, amigo?” e até o direto “E aí, vamo tomar b*c*tada na cara?” são alguns dos chistes. Caso o freguês esteja acompanhado, o cicerone pode dizer “A casa é de família, pode trazer esposa e namorada que tem mesa pra casal.”. O porteiro, além de abordar um possível cliente, deve zelar pela ordem na casa. Caso o freguês se exceda, o porteiro deve mostrar a ele o caminho da rua sem muita sutileza.
A casa cobra uma taxa de entrada, que geralmente dá direito a uma ou duas bebidas. Além disso, o cliente paga à parte. Nas boates, trabalham (em geral) cerca de quinze garotas, que recebem uma comissão sobre o preço das bebidas. Elas também fazem shows de strip-tease, para excitar o público e atrair os homens para os programas. Não há qualquer refinamento ou erotismo nas performances, como mostrado na novela Duas Caras, exibida pela Rede Globo; o show tem um ar de espetáculo de circo e filme pornográfico. Aliás, na maioria dos clubes há tevês ou telões que mostram filmes pornôs nacionais e estrangeiros ininterruptamente.
Os funcionários das boates, quando perguntados à respeito das freqüentes blitze policiais na região, são reticentes ou até mesmo hostis. Boa parte das casas funciona sem alvará. Algumas já foram fechadas mais de uma vez, mas funcionam por força de liminares. O Juizado de Menores também faz incursões a rua Augusta. Em uma operação orquestrada pela Polícia Civil no final de 2007, uma menor foi flagrada no clube Byblos, que foi lacrado. Ele foi reaberto em menos de uma semana e hoje está funcionando normalmente. Na data da operação, várias boates não abriram. O vazamento de informação de dentro da Polícia possibilitou aos donos das casas noturnas escaparem da fiscalização.

Do lado de dentro

No clube Caribe, o porteiro aborda os pedestres com uma promoção, “Olha aí, amigo, você paga 20 reais e pode tomar Skol à vontade por duas horas!”. Depois de pagar o preço combinado em um pequeno balcão apertado em um corredor estreito, como acontece nos demais clubes, chega-se a uma sala espaçosa, com iluminação de discoteca, paredes com espelhos fumê, televisores mostrando filmes pornôs e espaçosos sofás estofados com vinil vermelho ocupando toda a extensão das paredes. Ao fundo, está o bar, com suas banquetas altas também estofadas com vinil vermelho. Em uma das paredes há um pequeno palco, com piso iluminado e um mastro metálico, utilizado nos shows de strip-tease. A casa toca um repertório variado, do funk carioca ao samba, passando pela black music e pelo house. As músicas são interrompidas a cada 10 minutos pela mesma vinheta, “Caribe, a casa dos amigos!!!”.
Como nas outras boates, no lugar trabalham mais ou menos 15 mulheres. Elas vestem roupas provocantes como minissaias, shorts e bustiês apertados ou lingeries ousadas, usam perfumes fortes e nomes de guerra.
Emily, cujo nome verdadeiro é Rosângela, mora no Capão Redondo e gostaria de trabalhar em uma boate em Guarulhos. Lá ela seria mais bem paga e poderia até fumar maconha de vez em quando, o que é proibido pelas regras do Caribe. Com vários quilos a mais espremidos em um vestido decotado, estampado como uma pele de zebra, ela ri e diz “Ah, a mulher tem que ter onde os caras meter a mão!”, enquanto dança na sala.
Clara, de 21 anos declarados, é de Montes Claros, em Minas Gerais, e terminou seu último namoro quando a mãe de seu ex-namorado descobriu que ela se prostituía. Ela não considera os programas traição e cobra 70 reais a cada meia hora, desde que o pagamento seja em dinheiro vivo.
Caso o cliente resolva fazer um programa com uma das garotas, isto é, pagar por 30 minutos de companhia em um quarto, ele deve ir ao pequeno balcão da entrada e pagar o preço informado pela mulher que ele escolheu. É possível pagar em dinheiro e cartões de débito e crédito.
Quando questionado, o responsável pelo caixa informa de maneira burocrática que a casa não tem participação no programa, apenas aluga um quarto, valor que já está incluído no preço informado pela garota. O cliente paga e é conduzido pela garota que ele escolheu para um pequeno quarto no andar de cima, iluminado por uma lâmpada vermelha e onde há apenas uma cama de casal.

No divã

Segundo o psicanalista Paulo Fernando de Souza, os homens procuram as prostitutas por diversos motivos. Homens casados freqüentemente pagam por sexo para realizar fantasias que não tem coragem de propor a suas esposas. Homens jovens muitas vezes iniciam sua vida sexual com prostitutas e preferem pagar pelo sexo a se envolver em relacionamentos estáveis. Há ainda aqueles que procuram as prostitutas por imaginarem que são uma alternativa mais econômica para se obter sexo do que o namoro ou o casamento.
Além disso, afirma Souza, muitos homens se envolvem com prostitutas por uma questão de insegurança. Temendo dificuldades emocionais ou relacionamentos tumultuados, o homem paga uma garota de programa para delegar a ela ou para assumir totalmente o controle da situação. Há clientes que pagam a prostituta simplesmente por se sentirem seguros para conversar com ela, e nada além da conversa. A garota de programa torna-se assim, na visão de muitos fregueses, um porto seguro, mais do que um objeto sexual.

Prostituição, cultura e Lei

Há anos, a prostituta faz parte do imaginário do brasileiro. Diversos autores, músicos e cineastas imortalizaram a prostituta na cultura nacional. Com o passar do tempo, com o boom do cinema pornô e com a liberalização cada vez maior dos costumes, a prostituição se tornou tema de várias obras e discussões.
Na novela Laços de Família, a personagem Capitu, vivida por Giovanna Antonelli, vivia uma vida dupla e se prostituía escondida da família. Anos depois, Raquel Pacheco seria conhecida no país inteiro como Bruna Surfistinha, nome de guerra inventado pela garota de classe média que saiu de casa no final da adolescência e “caiu na vida”. Em um blog atualizado praticamente todos os dias, Bruna narrava seu dia a dia e dava detalhes dos programas que fazia e dos homens com quem saía. Foi um sucesso. Algum tempo depois, ela abandonou os programas e casou-se com um antigo cliente. Seu blog virou um livro, “O Doce Veneno do Escorpião”, que pode virar um filme em breve.
Com o debate cada vez mais aberto, a prostituição passou a ser vista sob uma ótica romântica e a prostituta foi sendo mais e mais glamourizada. A prostituta não era mais uma mulher frágil, uma paria da sociedade. A garota de programa ganhou super-poderes e foi vista como a encarnação da libertação sexual, a personificação da libido saudável.
Na sala espaçosa do Caribe, sentada em um dos sofás, Milena não pensa em nada disso. Ela está aborrecida porque brigou com sua filha hoje. Sua filha tem 17 anos e ultimamente só quer saber de ficar por aí saindo e não faz nada para ajudar em casa. Ela trabalha como secretária oito horas por dia, cinco dias por semana em um escritório. Pra complementar a renda, trabalha quatro noites por semana no Caribe, ou como ela mesma diz, “Não é que eu trabalho, eu fico aqui, né? Que isso aqui a gente não pode chamar de trabalho.”.
No Brasil, o favorecimento e a exploração da prostituição são crimes previstos em lei e passíveis de punições severas. O poder público busca combater essa forma de contravenção a todo custo, prendendo e condenando as pessoas que exploram, lucram ou facilitam a exploração sexual. Infelizmente, na maior parte das vezes isto não é o suficiente.
A glamourização da prostituição deixa de lado a questão primordial deste debate, que é a mercantilização do sexo. O fetiche do consumo naturalmente se estendeu ao corpo humano. A garota de programa não é uma super heroína, mas uma presa fácil. Uma vítima em uma prateleira de supermercado, cujo preço foi devidamente tabelado.

6 comentários:

Alan disse...

Ponto positivo pra vc.

j. caldeira disse...

puta que o pariu, mário! ficou bom, muito bom mesmo, parabéns.

Que me perdoem, mas eu não pude deixar de rir na parte do "procuram as prostitutas por imaginarem ue são uma alternativa mais econômica"....

Max disse...

“E aí, vamo tomar b*c*tada na cara?”

Hahahahahahahahahahahaha

E se formos pensar que a prostituição é cultura, bem que poderiam anunciar nos cadernos culturais casas de tolerancia em vez das notas non-sense sobre shows e expos que eu tenho lido pelos jornais paulistanos por aí.

Julia disse...

"No divã

Segundo o psicanalista Paulo Fernando de Souza, os homens procuram as prostitutas por diversos motivos. Homens casados freqüentemente pagam por sexo para realizar fantasias que não tem coragem de propor a suas esposas. Homens jovens muitas vezes iniciam sua vida sexual com prostitutas e preferem pagar pelo sexo a se envolver em relacionamentos estáveis. Há ainda aqueles que procuram as prostitutas por imaginarem que são uma alternativa mais econômica para se obter sexo do que o namoro ou o casamento.
Além disso, afirma Souza, muitos homens se envolvem com prostitutas por uma questão de insegurança. Temendo dificuldades emocionais ou relacionamentos tumultuados, o homem paga uma garota de programa para delegar a ela ou para assumir totalmente o controle da situação. Há clientes que pagam a prostituta simplesmente por se sentirem seguros para conversar com ela, e nada além da conversa. A garota de programa torna-se assim, na visão de muitos fregueses, um porto seguro, mais do que um objeto sexual."

qndo descobrirem qual eh o motivo de vcs me contem!

Fabio disse...

Ah que saudades das mulheres tolerantes de Sampa...

Anônimo disse...

Meu nome não vou revelar, mas trabalho em uma dessas boates na Rua Augusta e acredito que você critica pois tem um emprego, já que perde tempo da sua vida escrevendo em blogs sobre um emprego assim como outro. Não trabalho com isso por opção, aliás ninguém trabalha com programa porque gosta de ser arrombada. Acho que em vez de você criticar um modo de sobreviver nesse mundo injusto, deveria criticar a falta de emprego do nosso país. Você não acha? Nesse mundo capitalista em que vivemos, essa foi a única solução que encontrei, não posso contar com o governo, você pode? Então, pense duas vezes antes de postar em sua blog, algo tão preconceituoso, e comece a fazer sua parte pra mudar o mundo, escreva com respeito.
Aposto que você vai na Rua Augusta todo dia, pra falar assim com tanta convicção. E se não vai, você não tem o direito de falar de uma coisa que você nem conhece. Obrigado pela atenção, e pense nisso.