12 de dez de 2007

Dois Dias

Eu estava desligando o computador para ir embora quando um telefone tocou no fundo da redação e eu puxei da minha mesa. Atendi e Zé Américo pediu para falar comigo. Ele pareceu meio tenso e eu perguntei o que era:
- O vô morreu...acabou de morrer. A Nicinha que avisou.
Senti uma fraqueza e sentei na minha cadeira, sem conseguir falar nada. Vovô, morto. Meu Deus. Eu tinha ficado de ir pra fazenda no feriado. Tinha mais de 3 meses que a gente não se via.
- Foi de repente, hoje de tardinha. O doutor Armando acha que foi um derrame. Não sei, eu e o pai vamos pra lá de manhã, você vem com a gente?
Dali a dois dias eu ia pra fazenda ver o vovô. O doutor Armando acha que foi um derrame. O vô morreu.
- Vou hoje mesmo, Zé. Saindo daqui, o tempo de passar lá em casa e eu vou. A Nicinha tá sozinha lá?
- Não, o doutor Armando e o pessoal vão ficar lá hoje. Olha, você tem certeza que não quer ir com a gente amanhã? Você tá aí enfurnado direto sem dormir.
- Não dá, Zé. Preciso ir hoje.
- Tá bom, vai hoje então...mas descansa um pouco, Candinho. Por favor, descansa um pouco e depois vai.
- Descanso sim, não precisa se preocupar.
Nem vi aonde eu fui direito. Desliguei o telefone e saí. Andei, andei, andei até lembrar que meu carro estava na outra garagem. Voltei e fiquei zanzando até encontrar. Sentei e fiquei parado um tempão. O vigia perguntou se estava tudo bem, eu falei que sim, só precisava lembrar de umas providências.
O vô morreu. E dali a dois dias a gente ia estar junto na fazenda. O Zé Américo e o pai tinham me chamado no último fim de semana e eu fiquei lá feito barata tonta, de plantão. Nicinha naquela casa sozinha, coitada. E de repente, de tardinha, o vô teve um derrame.
Procurei uma mala e comecei a colocar tudo que eu achei que fosse precisar. Estava procurando meu canivete quando lembrei que não ia mais pescar. Não depois que o vô tinha morrido. Peguei meu terno também, e quando fui pegar a minha gravata vermelha, com o nó já feito, não consegui mais parar de chorar. Vovô fez aquele nó no Natal, já tinha uns anos.
- Que feio, Candinho. Desse tamanhão e ainda não consegue amarrar a gravata...o que eles te falam lá no jornal?
- Ninguém mais usa gravata lá não, vô. Iam estranhar é se eu usasse.
E vovô, achando aquilo muito divertido, me respondeu:
- Pois fique sabendo o senhor que nos meus tempos de estudante, estudante, veja lá, não se assistia à aula sem gravata, seu Candinho.
Não desfiz o nó depois daquele Natal. Acho que nem cheguei a usar gravata depois daquela noite. O nó ainda estava firme. Um nó italiano, o único que o vô sabia fazer. Nicinha estava junto com a gente naquela noite, morrendo de rir da nossa conversa. Ia precisar ligar pro meu chefe. Avisar que ia sumir, ou não, sumir e ser demitido de uma vez daquela porcaria de emprego.
Ainda não tinha jantado, estava morto de fome. O Daniel foi legal. Quando avisei que ia precisar viajar antes ele nem perguntou nada. Falou que eu podia ficar fora o quanto precisasse, só pra ligar avisando quando voltava, se eu pudesse. Falei que ligava pra me livrar daquilo rápido, peguei minha mala abarrotada e fui embora. E acho que deixei as luzes todas acesas. Mas agora eu só pensava em chegar depressa, com luz acesa e com fome, que seja, mas tinha que chegar logo.
Acabei parando a 200 quilômetros da fazenda. A gasolina estava no fim, não tinha lembrado de abastecer antes. Encostei em um BR, enchi o tanque e entrei no bar pra ver se tinha alguma coisa para enganar a fome. O vô morreu. Quando eu era menor e ia com o pai, o Zé Américo, o vô, os outros tios e os primos todos pescar, a gente parava em um posto que ficava perto da fazenda pra comprar gelo pro isopor. O vô sempre comprava picolé, que ele falava que era pros meninos, mas que quem gostava mesmo era ele. E a Nicinha ficava emburrada porque não podia ir com a gente. E agora o vô morreu, de repente, de tardinha.
O doutor Armando acha que foi um derrame. Noite fechada já, o caminho é depois de passar a cidade, antes de uma árvore grande que eu nunca soube qual era. O vô falava que era um jatobá, e eu sempre acreditei, mas um dia alguém falou que era uma outra qualquer, mas nem lembro mais quem foi que falou nem qual árvore que era. Foi bom que não tenha chovido esses dias, que aí eu ia ter que desatolar o carro sozinho.
A porteira ficou aberta, o Damião não deve estar aqui hoje. Bem capaz de ter ido até a cidade, levar o vô pra funerária. A casa inteira aberta, as luzes acesas, só a varanda do lado escura. Muito carro estacionado perto, todo mundo veio hoje. Estaciono junto da caminhonete e desço, pertinho da varanda do lado. Não quero encontrar ninguém ainda. Não agora. Daqui a dois dias eu ia ter parado o carro e entrado pela varanda da frente. Mas de repente, de tardinha, o vô morreu.

2 comentários:

max disse...

Belo conto Marião!

j. caldeira disse...

é, concordo com o max. gostei bastante