14 de out de 2007

Eu, você e todos os outros


Você se convence de que está tudo bem porque é a única coisa que pode salvar o seu dia. Você olha e não vê a mão estendida, a cara faminta, os olhos vidrados. Um resto de dignidade, embrulhada em um cobertor velho, largada na calçada. Tanto faz. Você vai para casa de carro, e fecha os vidros no semáforo. Se encolhe, cada vez que alguém passa perto da janela, se perguntando se chegou a sua hora, se é você quem vai estar no “Brasil Urgente” do dia seguinte. E mesmo em casa, você não consegue se sentir seguro. Não, pois em casa é sempre pior. Estamos encurralados. Você tranca a porta, liga o alarme como se tivesse que proteger a si próprio da sua culpa. E você telefona para todos que você conhece, preocupado, querendo saber se estão bem. E eu, que sou igual aos outros, telefono pra você, porque não sei como você está agora.

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